Boletim Científico · Fator Masculino
📌 Cápsula do achado
A fragmentação do DNA espermático (SDF) não deve ser utilizada como exame de rastreamento, mas pode modificar a conduta em situações específicas, como infertilidade inexplicada, perdas gestacionais recorrentes, falhas de FIV/ICSI, varicocele e idade paterna avançada.
O que este artigo acrescenta?
Esta revisão procura responder às perguntas que surgem na prática diária:
- Quando solicitar SDF?
- Como interpretar o resultado?
- Qual deve ser a conduta diante de uma SDF elevada?
O grande mérito do trabalho é deixar claro que a fragmentação do DNA espermático é um exame complementar, indicado apenas quando seu resultado pode modificar o aconselhamento ou o tratamento do casal.
Por que a fragmentação do DNA importa?
O espermograma avalia concentração, motilidade e morfologia. Entretanto, um homem pode apresentar um espermograma completamente normal e ainda assim possuir importante dano genômico dos espermatozoides.
Quando a carga de lesões ultrapassa a capacidade de reparo do oócito, podem ocorrer:
- menor potencial reprodutivo
- pior desenvolvimento embrionário
- falhas de implantação
- aumento das perdas gestacionais
- possível impacto sobre a saúde da prole
O artigo reforça que a idade materna modifica esse cenário: oócitos jovens possuem maior capacidade de reparar lesões do DNA espermático, enquanto essa capacidade diminui progressivamente com o envelhecimento ovariano. Assim, um mesmo grau de fragmentação pode ter pouca repercussão em uma mulher de 28 anos e consequências importantes em uma paciente de 40 anos.
Como ocorre a fragmentação?
O processo acontece em duas etapas:
1. Defeito na espermatogênese — há empacotamento inadequado da cromatina durante a espermiogênese, tornando o DNA mais vulnerável.
2. Estresse oxidativo — posteriormente, espécies reativas de oxigênio produzem quebras nas fitas do DNA.
Os principais fatores associados são:
- varicocele
- tabagismo
- obesidade
- diabetes
- inflamações do trato genital
- infecções
- idade paterna avançada
- exposição ambiental a toxinas
Os autores sugerem interpretar o resultado do exame da seguinte forma:
- <20%: baixo risco
- 20–30%: zona intermediária
- >30%: fragmentação elevada
Em quais pacientes solicitar SDF?
O artigo organiza as indicações por níveis de prioridade. As principais situações são:
- infertilidade inexplicada
- infertilidade idiopática masculina
- perdas gestacionais recorrentes
- falhas repetidas de IIU
- falhas de FIV/ICSI
- desenvolvimento embrionário insatisfatório
- varicocele clínica
- idade paterna avançada
- obesidade, diabetes e tabagismo
- infecção genital
- exposição ocupacional ou ambiental a toxinas
Atenção: não há recomendação para solicitar SDF de forma rotineira na investigação inicial da infertilidade.
O que fazer quando a SDF está elevada?
A principal mensagem do artigo é bastante prática: primeiro, tratar a causa.
Os autores recomendam:
- mudanças de estilo de vida
- perda de peso
- cessação do tabagismo
- tratamento de infecções
- correção de varicocele
- terapia hormonal em casos selecionados
- antioxidantes apenas quando houver plausibilidade biológica, evitando prescrição indiscriminada
Após aproximadamente um ciclo espermatogênico (10–12 semanas), deve-se repetir o exame.
Quando considerar espermatozoides testiculares?
Se, mesmo após otimização clínica, a fragmentação permanecer elevada (especialmente >30%), o artigo considera razoável discutir a utilização de espermatozoides testiculares para ICSI (Testi-ICSI).
O racional biológico é simples: grande parte do dano ocorre durante o trânsito epididimário por estresse oxidativo. Assim, os espermatozoides obtidos diretamente do testículo costumam apresentar menor fragmentação.
Meta-análises mostram associação com:
- menor taxa de aborto
- maior taxa de nascimento vivo em pacientes selecionados
Contudo, os autores enfatizam que as evidências ainda são predominantemente observacionais e faltam estudos randomizados de boa qualidade.
Mensagens práticas para o consultório
- Não solicitar SDF para todos os homens inférteis
- Corrigir primeiro fatores potencialmente reversíveis
- Repetir o exame após intervenção clínica
- Interpretar sempre em conjunto com idade feminina e contexto do casal
- Considerar Testi-ICSI apenas em casos selecionados com SDF persistentemente elevada
- Evitar indicar antioxidantes de forma indiscriminada
Aplicação clínica
Esta revisão consolida uma mudança importante de paradigma: a fragmentação do DNA espermático deixa de ser vista como um exame “experimental” e passa a ocupar um espaço definido dentro da andrologia moderna.
Para o especialista em reprodução assistida, o exame deve ser utilizado como ferramenta de tomada de decisão, e não como rastreamento universal. Seu maior valor está em identificar casais nos quais a otimização do fator masculino pode reduzir perdas gestacionais, melhorar o desempenho reprodutivo e orientar estratégias individualizadas de tratamento, sempre considerando também a idade e a reserva funcional do oócito feminino.
Fonte: Esteves SC, Humaidan P. Sperm DNA fragmentation: how to test, when to test, and what to do with abnormal results—a pragmatic mini-review for clinical practice. Human Reproduction, 2026;41(7):1024–1039. doi: 10.1093/humrep/deag056
Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais e de emulação de ensaios clínicos devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas.
Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva

