Quando falamos em preservação da fertilidade, muita gente pensa imediatamente em uma mulher que decide congelar óvulos porque pretende adiar a maternidade. Ou, talvez, em uma paciente com câncer que precisa proteger sua fertilidade antes da quimioterapia.
As duas situações são importantes — mas a preservação da fertilidade hoje é muito mais ampla.
Uma grande revisão publicada em 2026 na Human Reproduction Update analisou 25 anos de avanços nessa área e mostra como novas técnicas e um conhecimento maior sobre o funcionamento dos ovários ampliaram as possibilidades de preservar o potencial reprodutivo feminino.
Por que a fertilidade pode precisar ser preservada?
A mulher nasce com uma reserva de óvulos que diminui progressivamente ao longo da vida. Além desse processo natural de envelhecimento dos ovários, algumas doenças e tratamentos podem acelerar a perda dessa reserva.
É o caso, por exemplo, de determinados tipos de quimioterapia e radioterapia, capazes de lesar os folículos ovarianos e, em algumas situações, levar à insuficiência ovariana prematura. Um detalhe importante é que continuar menstruando depois do tratamento não significa necessariamente que os ovários não tenham sofrido perda de reserva.
Mas o câncer deixou de ser a única situação em que precisamos pensar nisso.
Hoje, a preservação da fertilidade também pode ser considerada para algumas mulheres com doenças hematológicas, imunológicas, metabólicas ou genéticas, antes de determinadas cirurgias sobre os ovários e em outras condições capazes de comprometer a função ovariana.
A endometriose também entrou nessa discussão, principalmente quando há comprometimento ovariano ou necessidade de cirurgias que possam reduzir a reserva de óvulos.
E existe ainda uma indicação completamente diferente: a mulher saudável que deseja ter filhos no futuro, mas sabe que provavelmente precisará adiar a maternidade.
Congelar óvulos foi uma das grandes mudanças desses 25 anos
Isso trouxe uma vantagem importante: a mulher pode preservar seus óvulos sem precisar decidir naquele momento com quem deseja ter filhos ou qual sêmen será utilizado.
Mas há um ponto fundamental que não deve ser esquecido: congelar óvulos não congela a fertilidade; congela óvulos com a idade que a mulher tinha no momento da coleta.
Por isso, a idade em que a preservação é realizada e a quantidade de óvulos obtidos são fatores importantes para as chances futuras de sucesso.
Preservar a fertilidade nem sempre significa congelar óvulos
Essa talvez seja uma das informações menos conhecidas pelas pacientes.
Em algumas situações, é possível retirar cirurgicamente uma pequena quantidade de tecido do ovário e congelá-lo. Posteriormente, esse tecido pode ser transplantado novamente.
A criopreservação de tecido ovariano é especialmente relevante quando não há tempo suficiente para realizar estimulação ovariana ou em meninas que ainda não chegaram à puberdade.
Os avanços nessa área foram tão importantes que hoje o congelamento e posterior transplante de tecido ovariano fazem parte das estratégias estabelecidas de preservação da fertilidade.
Então, quem deveria conversar sobre preservação da fertilidade?
Não existe uma resposta única.
A conversa é importante para uma mulher que recebeu o diagnóstico de câncer, mas também para quem tem uma doença ou precisará de um tratamento que possa comprometer os ovários; para algumas pacientes com endometriose ou determinadas condições genéticas; e para mulheres que simplesmente sabem que desejam ser mães, mas provavelmente precisarão adiar esse projeto.
E essa conversa idealmente deve acontecer antes que a fertilidade esteja comprometida.
Preservar a fertilidade não significa garantir uma gravidez no futuro. Significa avaliar, enquanto ainda existe oportunidade, quais recursos podem aumentar as possibilidades reprodutivas daquela mulher mais adiante.
O que mudou em 25 anos?
Talvez a principal mudança não seja uma técnica específica.
É a maneira de pensar.
A preservação da fertilidade deixou de ser uma medida excepcional, quase restrita às pacientes com câncer, para se tornar uma área da medicina reprodutiva capaz de oferecer estratégias diferentes para situações diferentes.
Congelamento de óvulos, congelamento de embriões, preservação de tecido ovariano, cirurgias preservadoras e protocolos específicos de estimulação fazem parte de um conjunto de possibilidades que deve ser escolhido de acordo com a idade, reserva ovariana, doença de base, tratamento previsto, tempo disponível e planos reprodutivos de cada mulher. Essa individualização é uma das principais mensagens da revisão.
Se existe algum fator que possa comprometer sua fertilidade no futuro — seja uma doença, um tratamento, uma cirurgia ou simplesmente o adiamento da maternidade —, converse precocemente com um especialista em Reprodução Assistida. Isso pode ajudar a entender se há indicação de preservação e qual estratégia faz sentido para você.
Referência: Sonmezer M, Sacinti KG, Oktay KH. Female fertility preservation: 25 years of progress, expanding indications and future prospects. Human Reproduction Update. 2026;32(2):231–259.

