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Boletim Científico

Boletim Científico · Atualização Semanal

Reprodução assistida, lida a fundo — toda semana.

Resumos e comentários clínicos sobre guidelines e artigos recém-publicados em medicina reprodutiva, produzidos e assinados pessoalmente a cada semana.

Dra. Aline Leite — Ginecologista e Especialista em Reprodução Assistida · CRM-SP 102616 · RQE 331101 · Professora, PrepaRA

2026 · Agosto Ciclo menstrual

Variação do tempo de ovulação e do ciclo menstrual: o que mostra a maior coorte prospectiva de longo prazo já publicada

Malliou-Becher MN, Herrmann PM, Freis A, et al. Variations in ovulation time and menstrual cycle characteristics: analysis of a prospective long-term cohort study. Human Reproduction, 2026;41(6):959–968.

Achado central: em coorte prospectiva com 1.051 mulheres e 12.612 ciclos (até 34 anos de seguimento), 62,4% das mulheres apresentaram variação ≥7 dias na duração do ciclo dentro de 12 ciclos, e 54,8% variaram ≥7 dias na data de ovulação. Apenas 50% das ovulações ocorreram entre os dias 12–16 do ciclo — o restante ficou fora dessa janela classicamente assumida como “meio do ciclo”.

Desenho do estudo

Coorte prospectiva observacional (jan/1985–jul/2019), com 1.923 mulheres e 43.999 ciclos registrados pelo método sintotérmico Sensiplan (dupla checagem: muco cervical + temperatura basal). Após critérios de inclusão (18–44 anos, sem uso de hormônios reprodutivos, exclusão de puerpério/amenorreia/pós-uso de contracepção hormonal recente), o grupo principal totalizou 1.051 mulheres com 12 ciclos cada (12.612 ciclos), além de um subgrupo de 420 ciclos de concepção. A ovulação foi definida como o dia anterior à elevação sustentada da temperatura basal, confirmada pelo pico de muco cervical — método com 89% de concordância com ovulação confirmada por foliculometria ultrassonográfica (±1 dia).

Duração do ciclo

Mediana de 28 dias (média 29,66; DP 7,55; amplitude de 209 dias no grupo principal). Apenas 52,7% das mulheres mantiveram ciclos entre 23–35 dias em todos os 12 ciclos observados, e a variação mediana entre o ciclo mais curto e o mais longo foi de 8 dias. Houve redução significativa do comprimento do ciclo com a idade (ANOVA, P<0,001): mediana de 29 dias (18–29 anos) caindo para 27 dias (40–44 anos). Mulheres com variação ≥1 semana eram significativamente mais jovens (28,50 ± 5,49 anos) do que aquelas com variação ≤1 semana (29,47 ± 5,64 anos; P=0,005).

Tempo de ovulação

Mediana no dia 16 (média 17,22 ± 5,85). No grupo de concepção, 45,7% das gestações resultaram de ovulação após o dia 16. A variação intraindividual do dia de ovulação foi ≥7 dias em 54,8% das mulheres, e ≥4 dias em 96,5% — variação mediana também de 8 dias. Houve efeito significativo da idade (P<0,001): mulheres de 35–39 anos foram o grupo mais estável, enquanto 18–24 e 40–44 anos apresentaram maior variabilidade.

Tendência ao longo de 34 anos

Houve aumento discreto, porém estatisticamente significativo, do comprimento médio do ciclo entre 1985 e 2019 (β=0,0161; P=0,0306), correspondendo a cerca de 0,55 dia ao longo do período. A variabilidade intraindividual também mostrou tendência de aumento, mas sem significância estatística (P=0,2173).

Limitações

Comorbidades como hiperprolactinemia, obesidade e SOP não foram sistematicamente excluídas, embora o critério de ≥12 ciclos completos tenda a excluir distúrbios hormonais graves. Possível viés de seleção sociodemográfica (usuárias de Sensiplan, predominantemente de língua alemã e escolaridade média-alta), o que pode limitar a generalização para populações mais diversas.

Na prática clínica, esse estudo reforça um ponto que já observamos no consultório: orientar uma paciente a “calcular” a ovulação pelo dia 14 do calendário é, na maioria das vezes, impreciso. Com metade das ovulações ocorrendo fora da janela do dia 12 ao 16 — e quase metade das concepções do próprio estudo acontecendo após o dia 16 —, o método de calendário isolado tende a subestimar a real variabilidade de cada ciclo, especialmente em mulheres mais jovens, que aqui apresentaram a maior instabilidade.

Esse é também um ponto importante ao orientar pacientes que utilizam aplicativos de previsão de ciclo. A maioria desses aplicativos estima a ovulação a partir de médias de ciclos anteriores ou de fórmulas fixas de calendário, sem incorporar sinais biológicos individuais do ciclo atual. Vale destacar que, entre os sinais observados no estudo, o muco cervical tem valor preditivo — sua mudança de padrão sinaliza a proximidade da ovulação, ainda antes que ela ocorra, permitindo à paciente identificar a janela fértil em tempo real. Já a temperatura basal é apenas confirmatória: sua elevação só se manifesta depois que a ovulação já aconteceu, funcionando como checagem retrospectiva, não como ferramenta de previsão. Isso reforça que a orientação para identificar o período fértil deve priorizar a observação do muco cervical, com a temperatura basal como confirmação posterior — e não como ferramenta preditiva substituta de um app de calendário.

Também vale destacar o achado de que a variabilidade do ciclo tende a diminuir, mas não desaparecer, entre os 35 e 39 anos, o que reforça a importância de investigar precocemente qualquer irregularidade persistente, independentemente da faixa etária.
— Dra. Aline Leite

Percebeu irregularidade no seu ciclo ou dificuldade para identificar sua janela fértil?

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Fonte: Malliou-Becher MN, Herrmann PM, Freis A, et al. Variations in ovulation time and menstrual cycle characteristics: analysis of a prospective long-term cohort study. Human Reproduction, 2026;41(6):959–968. doi: 10.1093/humrep/deag057

Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas, sem inferência de causalidade.

Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva

2026 · Agosto Suplementação

Suplementação pré-concepcional: o que os dados mostram sobre multivitamínicos, casais e chance de nascimento vivo

Sealy MJ, et al. Association between preconception supplement use and live birth among couples seeking fertility treatment. Fertility and Sterility, 2026;126:391–406.

Achado central: em análise secundária de duas coortes prospectivas americanas (FAZST e IDEAL), o uso de multivitamínico pela parceira associou-se a maior chance de nascimento vivo (RR ajustado 1,22; IC95% 1,05–1,41) — cerca de 6 nascidos vivos adicionais a cada 100 mulheres usuárias. Já a suplementação masculina, isolada ou combinada, não mostrou associação com o desfecho.

Publicado em agosto de 2026 na Fertility and Sterility, o estudo é uma análise secundária de duas coortes prospectivas americanas — FAZST e IDEAL —, envolvendo 2.370 casais em investigação ou tratamento de infertilidade, acompanhados por até 18 meses. O objetivo foi descrever o padrão de uso de suplementos entre parceiras e parceiros e avaliar a associação desse uso com nascimento vivo e perda gestacional.

Frequência de uso

O uso de suplementos mostrou-se bastante comum na população estudada. Entre as mulheres, 67% relataram uso de multivitamínico, com destaque também para ácido fólico (10%), ômega-3 (8,3%), vitamina C (7,1%) e cálcio (6,8%). Entre os homens, 37% utilizavam multivitamínico, além de ômega-3 (9,4%), vitamina C (9%), CoQ10 e vitamina B12 (4,9% cada).

Multivitamínico feminino e nascimento vivo

O uso de multivitamínico pelas mulheres associou-se a maior chance de nascimento vivo (RR ajustado 1,22; IC95% 1,05–1,41), correspondendo a cerca de 6 nascidos vivos adicionais a cada 100 mulheres usuárias. Quando ambos os parceiros utilizavam multivitamínico, ou apenas a parceira, também houve associação positiva; o uso exclusivo pelo parceiro masculino não mostrou o mesmo efeito.

Suplementação masculina

Para os homens, não houve associação entre uso de multivitamínico — ou de suplementos individuais como CoQ10, zinco, vitamina C, B12 e ômega-3 — e a chance de nascimento vivo. Esse achado é consistente com os resultados nulos já observados no ensaio original de suplementação com ácido fólico e zinco em homens.

Combinações de suplementos

Entre as combinações avaliadas, a associação de multivitamínico com ácido fólico apresentou a maior força de associação com nascimento vivo (RR ajustado 1,46; IC95% 1,16–1,85). Os autores ressaltam, no entanto, que se trata de um estudo observacional, o que não permite inferir causalidade.

Influência do tipo de tratamento

Um achado relevante foi a estratificação por tipo de tratamento: o benefício do multivitamínico feminino permaneceu significativo apenas entre as mulheres que não realizaram tratamento de fertilidade (RR 1,44; IC95% 1,00–2,08). Entre aquelas submetidas a IIU/indução da ovulação ou a FIV, não houve associação estatisticamente significativa — sugerindo que o efeito, se existente, pode ser diluído pela maior eficácia dos tratamentos de alta complexidade.

Perda gestacional

Não foi encontrada associação entre uso de multivitamínico — ou de qualquer suplemento isolado, em homens ou mulheres — e risco de perda gestacional antes de 20 semanas.

Limitações

O próprio estudo aponta limitações importantes: caráter observacional, uso autorreferido de suplementos, ausência de dados sobre dose e fabricante, e possível viés do “usuário saudável” (indivíduos que suplementam tendem a ter hábitos de vida mais favoráveis de forma geral, o que pode confundir os resultados).

Os dados reforçam que a recomendação de multivitamínico pré-concepcional para mulheres continua sendo uma conduta razoável, sobretudo pelos benefícios obstétricos já conhecidos, como a prevenção de defeitos do tubo neural. Já a indicação rotineira de suplementos isolados — como CoQ10, ômega-3, zinco ou vitamina C — com a promessa de aumentar as taxas de gravidez ou nascimento vivo não encontra respaldo neste estudo, tanto para mulheres quanto para homens. Em pacientes que seguirão para FIV, os dados não sugerem benefício adicional do multivitamínico sobre o resultado do tratamento, informação importante para o alinhamento de expectativas durante o aconselhamento.
— Dra. Aline Leite

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Fonte: Sealy MJ, et al. Association between preconception supplement use and live birth among couples seeking fertility treatment. Fertility and Sterility, 2026;126:391–406.

Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas, sem inferência de causalidade.

Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva

Boletim Científico · Reprodução Assistida

Blastocisto ou D3? Nem sempre o blastocisto é a escolha com maior chance de nascido vivo

📌 Cápsula do achado

Em pacientes que obtêm apenas um zigoto após a fertilização, um estudo de emulação de ensaio clínico (target trial emulation) encontrou taxa de nascido vivo por casal de 12,5% com transferência em estágio de clivagem (D2/D3) versus 10,1% com transferência em blastocisto (D5/D6) — risco relativo ajustado de 1,24 (IC 95%: 1,15–1,50). O efeito foi maior a partir dos 35 anos, associado à queda na taxa de desenvolvimento embrionário até o estágio de blastocisto.

O estudo

Nas últimas duas décadas, a transferência de blastocistos tornou-se o padrão predominante em reprodução assistida, sustentada por ensaios randomizados que demonstraram melhores taxas de implantação e nascido vivo por transferência. No entanto, esses ensaios incluíram majoritariamente pacientes de bom prognóstico, com três ou mais zigotos disponíveis. Permanecia em aberto se esse benefício se estende a pacientes com apenas um zigoto.

Fitzgerald e colaboradores (Centre for Big Data Research in Health, UNSW Sydney) analisaram dados do registro nacional de reprodução assistida da Austrália e Nova Zelândia (ANZARD), incluindo 11.163 mulheres nulíparas em seu primeiro ciclo de FIV/ICSI com apenas um zigoto após a fertilização. Como um ensaio randomizado seria inviável nessa população, os autores utilizaram a metodologia de target trial emulation, combinada a g-computation, para simular um ensaio clínico idealizado a partir dos dados observacionais. O desfecho primário foi a taxa de nascido vivo por casal.

Principais resultados

A transferência em D3 apresentou maior taxa de nascido vivo por casal em comparação ao cultivo estendido até blastocisto:

  • 12,5% com transferência em D3
  • 10,1% com transferência em blastocisto
  • Risco relativo ajustado de 1,24 (IC 95%: 1,15–1,50)

O benefício relativo aumentou com a idade materna:

  • 35 anos: RR 1,34 (IC 95%: 1,15–1,57)
  • 40 anos: RR 1,51 (IC 95%: 1,25–1,80)

O achado está relacionado às taxas de sobrevivência embrionária estimadas pelos modelos: cerca de 92% dos zigotos atingem o estágio de clivagem, enquanto apenas 59% (35 anos) e 50% (40 anos) atingem o estágio de blastocisto. Ao prolongar o cultivo de um único embrião, existe probabilidade relevante de que nenhum embrião esteja disponível para transferência, eliminando a chance de gravidez naquele ciclo.

O que este estudo acrescenta à prática

Este trabalho reforça que os benefícios do blastocisto observados em pacientes de bom prognóstico não podem ser generalizados de forma automática. Na prática clínica, é comum comparar taxas de sucesso por transferência — nesse recorte, o blastocisto de fato apresenta melhor desempenho. Para a paciente, contudo, a pergunta relevante é outra: qual estratégia oferece maior chance de nascido vivo naquele ciclo, considerando também o risco de não haver embrião para transferir.

O cultivo até D5 permite seleção natural dos embriões com maior potencial de desenvolvimento in vitro. Quando há apenas um zigoto, no entanto, essa seleção pode resultar simplesmente na ausência de embrião para transferência — enquanto a transferência precoce permite que o embrião continue seu desenvolvimento no ambiente uterino.

Esse equilíbrio é particularmente relevante para pacientes com:

  • baixa resposta ovariana;
  • idade materna avançada;
  • baixa reserva ovariana;
  • apenas um zigoto disponível após a fertilização.

Limitações

O estudo não é randomizado. O dia originalmente planejado para a transferência não estava registrado no banco de dados, exigindo modelagem estatística para inferir essa intenção; também não havia informação sobre qualidade embrionária, e os resultados dependem das premissas dos modelos utilizados. Essas limitações não permitem afirmar superioridade da transferência em D3 em todos os cenários, mas sustentam a mensagem central: a estratégia ideal depende do prognóstico individual da paciente.

Aplicação clínica

A decisão sobre o dia da transferência embrionária não deve seguir protocolo rígido. Fatores como idade materna, reserva ovariana, resposta à estimulação e número de embriões disponíveis devem orientar essa escolha de forma individualizada — especialmente em pacientes com apenas um zigoto, nas quais garantir que exista um embrião disponível para transferência pode ser mais determinante do que aguardar o estágio de blastocisto.

Fonte: Fitzgerald O, Li W, Vallence C, Chambers GM, Rombauts L. Cleavage stage versus blastocyst stage transfers in patients with a single zygote: an emulated target trial. Human Reproduction, 2026;41(7):1106–1114. doi: 10.1093/humrep/deag075

Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais e de emulação de ensaios clínicos devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas.

Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva

2026 · Guia clínico Reserva ovariana

Insuficiência Ovariana Prematura: o que diz a ciência mais recente

Guia clínico baseado em diretrizes internacionais (ESHRE/ASRM/IMS/CRE) e estudos publicados nos últimos cinco anos.

Achado central: a Insuficiência Ovariana Prematura (IOP) afeta cerca de 3 a 4% das mulheres antes dos 40 anos e ainda é subdiagnosticada. O diagnóstico se confirma por dosagem de FSH em duas ocasiões com um mês de intervalo, e o tratamento hormonal deve ser entendido como proteção óssea, cardiovascular e emocional a longo prazo — não apenas alívio de sintomas.

O que é a IOP?

A Insuficiência Ovariana Prematura é a perda da função dos ovários antes dos 40 anos, identificada por ciclos menstruais irregulares ou ausentes por 4 meses ou mais, associados a exames de sangue que confirmam a queda da reserva hormonal. É diferente da menopausa que ocorre naturalmente por volta dos 50 anos: por acometer mulheres ainda jovens, a IOP exige uma abordagem própria, que vai muito além do simples controle de sintomas.

Por que isso acontece?

Os ovários possuem uma reserva limitada de óvulos, definida ainda antes do nascimento. Na IOP, essa reserva se esgota de forma precoce por três caminhos principais: uma reserva inicial já reduzida, uma perda acelerada dos folículos ao longo da vida, ou uma falha na maneira como os folículos respondem aos hormônios que estimulam a ovulação. O resultado é sempre o mesmo: níveis baixos de estrogênio, hormônio responsável por proteger ossos, coração, pele e o bem-estar emocional da mulher.

Quais são as causas?

Em grande parte das pacientes, a causa não é identificada mesmo após investigação completa. Quando encontrada, costuma se encaixar em um destes grupos:

  • Genéticas — como a síndrome de Turner ou alterações no gene FMR1;
  • Autoimunes — quando o próprio organismo ataca o tecido ovariano, muitas vezes associado a doenças da tireoide;
  • Iatrogênicas — decorrentes de quimioterapia, radioterapia ou cirurgias ovarianas;
  • Ambientais e infecciosas — incluindo evidências recentes sobre o impacto de infecções virais na reserva ovariana.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico combina história clínica e exames de sangue — principalmente o FSH, dosado em duas ocasiões com um mês de intervalo. A partir da confirmação, exames complementares (função da tireoide, cariótipo e, em casos selecionados, testes genéticos) ajudam a identificar a causa e a definir o melhor plano de cuidado. Quanto mais cedo a investigação começa, mais cedo o tratamento adequado pode ser iniciado.

Como é o tratamento?

A reposição hormonal é a base do tratamento e deve ser mantida, em geral, até a idade média da menopausa natural — não se trata de um tratamento apenas para sintomas, mas de uma proteção real para ossos, coração e saúde emocional a longo prazo. O esquema é sempre individualizado, considerando idade, sintomas e desejo reprodutivo. Mulheres que desejam engravidar devem ser orientadas sobre as opções de reprodução assistida, já que a gravidez espontânea é rara, mas não impossível. Em situações de risco à fertilidade — como antes de tratamentos oncológicos — a preservação de óvulos ou tecido ovariano deve ser discutida com antecedência.

O acompanhamento não para no diagnóstico

A IOP pede um cuidado contínuo, com metas diferentes ao longo do tempo:

  • No curto prazo, o foco é confirmar o diagnóstico, iniciar o tratamento hormonal e acolher o impacto emocional da notícia;
  • No médio prazo, acompanha-se a resposta ao tratamento e ajustam-se hábitos de vida — alimentação, atividade física e sono;
  • No longo prazo, o cuidado se estende por toda a vida, com avaliação periódica da saúde óssea, cardiovascular e emocional — pesquisas recentes mostram maior risco de acúmulo de outras condições de saúde ao longo do tempo quando não há acompanhamento adequado.

O que toda paciente precisa saber

  • IOP não é “menopausa precoce” comum — é uma condição médica que merece investigação própria.
  • O diagnóstico não fecha a porta para a maternidade: existem caminhos, e eles devem ser conversados sem pressa.
  • O tratamento hormonal é proteção para o futuro, não apenas alívio para o presente.
  • O impacto emocional é real e válido — buscar apoio psicológico faz parte do cuidado.
  • O acompanhamento é para a vida toda, com uma equipe que caminha junto com você.
Na prática clínica, o ponto que mais faz diferença é o tempo de resposta: quanto antes a paciente com irregularidade menstrual antes dos 40 anos é investigada, antes o tratamento hormonal protetor pode começar. A conversa sobre fertilidade deve ser feita com cuidado e sem pressa — a IOP não significa impossibilidade de gestação, e as opções devem ser apresentadas com clareza desde o diagnóstico.
— Dra. Aline Leite

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Fontes consultadas

  • ESHRE/ASRM/IMS/CRE WHiRL. Premature Ovarian Insufficiency: International Guideline 2024. Human Reproduction Open, 2024.
  • Pravatta-Rezende G, et al. Premature ovarian insufficiency: updated concepts in diagnosis and hormonal treatment strategies. Clinics, 2025.
  • Vogt EC, et al. Improving diagnostic precision in primary ovarian insufficiency. Human Reproduction, 2024.
  • Heddar A, et al. Genetic landscape of a large cohort of Primary Ovarian Insufficiency. EBioMedicine, 2022.
  • Shea AK, et al. Association between primary ovarian insufficiency and multimorbidity. Fertility and Sterility, 2025.
  • Butts SF. The overlooked and undertreated perils of premature ovarian insufficiency. Cleveland Clinic Journal of Medicine, 2025.

Todas as informações publicadas neste site têm cunho educacional; os conteúdos são previamente revisados pela médica ginecologista Dra. Aline Leite, CRM-SP 102616 | RQE 331101, responsável pela clínica, e não podem ser consideradas diagnóstico. Para tal, são necessários consulta e exames preliminares.

2026 · Semana 28 Fator masculino

Fragmentação do DNA espermático: quando testar, como interpretar e o que fazer diante de um resultado alterado

Esteves SC, Humaidan P. Sperm DNA fragmentation: how to test, when to test, and what to do with abnormal results — a pragmatic mini-review for clinical practice. Human Reproduction, 2026;41(7):1024–1039.

Achado central: a fragmentação do DNA espermático (SDF) não deve ser usada como exame de rastreamento, mas pode mudar a conduta em situações específicas — infertilidade sem causa aparente, perdas gestacionais recorrentes, falhas de FIV/ICSI, varicocele e idade paterna avançada. O manejo é escalonado: corrigir fatores reversíveis, reavaliar a SDF após um ciclo espermatogênico e, conforme o grau de dano persistente, considerar seleção espermática por microfluídica ou uso de espermatozoides testiculares para ICSI.

Um homem pode ter espermograma completamente normal e ainda assim apresentar dano genômico relevante nos espermatozoides. Quando a carga de lesões ultrapassa a capacidade de reparo do oócito, aumentam as chances de pior desenvolvimento embrionário, falha de implantação e aborto espontâneo — com a idade materna influenciando diretamente essa capacidade de reparo. A revisão organiza de forma prática quando solicitar o exame (SDF >20% já é zona de atenção, >30% é fragmentação elevada), reforçando que não há indicação para solicitação rotineira na investigação inicial da infertilidade.

Na prática do consultório, os pontos que mais pesam: não pedir SDF para todo homem infértil, mas priorizar as indicações certas (infertilidade inexplicada, perdas recorrentes, falhas de FIV/ICSI, varicocele clínica). Corrigir primeiro o que é reversível — peso, tabagismo, infecção, varicocele — e só então repetir o exame após ~10-12 semanas. Para SDF persistentemente elevada mesmo após otimização, a discussão sobre Testi-ICSI (uso de espermatozoides testiculares) ganha respaldo de metanálises recentes, com menor taxa de aborto e maior taxa de nascidos vivos em fenótipos bem selecionados — ainda que a evidência siga sendo majoritariamente observacional.
— Dra. Aline Leite

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Publicado semanalmente por Dra. Aline Leite — CRM-SP 102616 · RQE 331101
Conteúdo de análise científica. Não substitui avaliação médica individualizada.