Reprodução assistida, lida a fundo — toda semana.
Resumos e comentários clínicos sobre guidelines e artigos recém-publicados em medicina reprodutiva, produzidos e assinados pessoalmente a cada semana.
2026 · Semana 41
Preservação da fertilidade
Congelamento eletivo de óvulos: o que mostram 15 anos de dados da Austrália e Nova Zelândia
Fitzgerald O, Keller E, Lieberman D, Peate M, Kotevski D, Paul R, Rodino I, Parle A, Hammarberg K, Copp T, Chambers GM. Planned egg freezing over 15 years: return to treatment and success rates in Australia and New Zealand. Hum Reprod. 2026;00(00):1-12. doi:10.1093/humrep/deag155.
Achado central
Em coorte populacional de 20.209 mulheres que fizeram preservação eletiva de óvulos (PEF) na Austrália e Nova Zelândia (2009-2023), a adesão cresceu 35% ao ano e já responde por ~12% dos ciclos de reprodução assistida da região em 2023. Com ≥ 10 anos de seguimento, pouco mais de 1 em cada 4 mulheres retornou para descongelar os óvulos, e cerca de 1 em cada 3 dessas teve pelo menos um nascido vivo (33,9%; 37,8% nos descongelamentos mais recentes, 2019-2021). Quase metade usou sêmen de doador.
Pergunta clínica
A preservação eletiva de óvulos (planned egg freezing, PEF) cresceu de forma expressiva na última década, mas faltam dados populacionais robustos — a maioria dos estudos anteriores vem de clínicas isoladas (< 1.000 mulheres) ou de registros nacionais sem informação sobre número de óvulos congelados ou taxas de retorno. O tempo de seguimento também varia muito entre estudos, enviesando para baixo as taxas relatadas de retorno e sucesso. Este estudo respondeu, com dados populacionais do registro ANZARD (2009-2023): (1) qual a tendência temporal da PEF; (2) o perfil de quem congela; (3) o perfil de quem retorna para usar os óvulos; e (4) as taxas cumulativas de nascido vivo.
Métodos
- Desenho: coorte retrospectiva de base populacional, usando o ANZARD (registro de todos os ciclos de reprodução assistida na Austrália e Nova Zelândia), com dados de 2009 a 2023.
- Definição de PEF: mulheres > 18 anos, sem tratamento prévio de reprodução assistida, em ciclo de coleta com congelamento de todos os óvulos, por envelhecimento reprodutivo ou outra causa não médica (ex.: endometriose, antes de qualquer indicação médica se concretizar). Excluídas as que congelaram por câncer ou por falha de obtenção de sêmen (fator masculino).
- Amostra: 20.209 mulheres (ponderadas) fizeram PEF; 2.324 retornaram para tratamento; 1.657 (71,3%) descongelaram os óvulos, e os demais 28,7% usaram óvulos frescos de um novo ciclo.
- Ajuste para indicação oncológica: antes de 2020 o ANZARD não registrava se o congelamento era por câncer. Um modelo preditivo (treinado em 2020-2023; AUC-ROC 0,783) estimou essa probabilidade retroativamente para ponderar a coorte 2009-2019.
- Taxa de nascido vivo: mulheres com nascido vivo a partir de embriões do ciclo de descongelamento ÷ mulheres que descongelaram óvulos. Calculada apenas para descongelamentos até 2021 (≥ 1 ano de seguimento).
- Preditores de nascido vivo: modelo aditivo generalizado (GAM, ligação logística) em 364 mulheres (ponderadas) no primeiro ciclo de descongelamento, com ≥ 2 anos de seguimento, ajustando idade ao congelamento, método de congelamento, idade ao descongelamento, número de óvulos descongelados, diagnóstico de infertilidade, uso de sêmen de doador, tempo de armazenamento e ano do descongelamento.
Quem congela, e quantos óvulos
O crescimento foi de 55 mulheres em 2009 para 4.919 em 2023 — aumento de 35% ao ano, com tempo de duplicação estimado de 2-3 anos. A maioria congela na faixa dos 34-38 anos (59% acima de 35 anos; 7% acima de 40), é nulípara (98,6%) e faz um único ciclo de coleta (68%; 22% fazem dois). A mediana de óvulos congelados por mulher foi 12 [IQR 7-18]. É importante contextualizar esse número: 4 das 5 calculadoras de congelamento de óvulos revisadas pela literatura concordam que uma mulher de 33 anos precisa congelar ao menos 20 óvulos para ter chance alta (74-97%) de nascido vivo — uma lacuna relevante para o aconselhamento pré-congelamento.
Quem retorna, e quando
| Seguimento | Coorte (ano da PEF) | Retornou e descongelou | Tempo médio até retorno |
|---|---|---|---|
| ≥ 5 anos (N = 4.288) | 2009-2018 | 22,1% | 4,4 anos [IQR 3,1-5,5] |
| ≥ 10 anos (N = 514) | 2009-2013 | 27,9% | 4,9 anos [IQR 3,3-6,6] |
Considerando o retorno a qualquer forma de tratamento (novo ciclo estimulado e/ou descongelamento), os percentuais sobem para 29,2% em 5 anos e 37,9% em 10 anos — ainda assim, menos da metade das mulheres retornou para usar os óvulos armazenados dentro do período estudado. Entre as que retornaram e descongelaram: idade mediana ao descongelar de 40,7 anos [IQR 38,7-42,6]; 47,0% usaram sêmen de doador; 43,5% eram mulheres solteiras no retorno. As que retornaram tendiam a ser mais velhas ao congelar e a ter coletado/congelado discretamente menos óvulos do que a coorte geral (p < 0,01).
Resultados reprodutivos do descongelamento
| Desfecho (todas as pacientes) | Descongelado 2009-2021 | Descongelado 2019-2021 |
|---|---|---|
| ≥ 1 nascido vivo por mulher | 33,9% | 37,8% |
| > 1 nascido vivo por mulher | 4,2% | 4,7% |
| Nascido vivo por transferência embrionária | 26,2% | 28,5% |
| ≥ 1 nascido vivo, só óvulos descongelados (sem ciclo fresco concomitante) | 32,0% | 35,5% |
Entre as mulheres que descongelaram, 21,7% não descongelaram todos os óvulos armazenados (mediana de 10 descongelados [IQR 6-14] frente a 11 congelados [IQR 6-18]). A taxa de fertilização por mulher foi de 67% [IQR 50-80%], e 86,1% tiveram ao menos um embrião disponível para transferência ou congelamento. Menos de 1% das mulheres que descongelaram em 2019-2021 tiveram falha total de fertilização.
Preditores de nascido vivo com óvulos descongelados
- Idade ao congelamento: associação negativa com a chance de nascido vivo — quanto mais tarde a mulher congela, menor a chance futura, reforçando o racional biológico da PEF.
- Número de óvulos descongelados: associação positiva — mais óvulos, maior chance de nascido vivo.
- Uso de sêmen de doador (vs. parceiro): aOR 2,76 (IC95% 1,58-4,82) — associação positiva e estatisticamente significativa, provavelmente refletindo diferenças no perfil das pacientes, não um efeito biológico direto do sêmen de doador.
- Vitrificação (vs. congelamento lento): aOR 3,13 (IC95% 0,73-13,3) — tendência, sem significância estatística, amostra pequena de congelamento lento.
- Sem associação: idade ao descongelar, tempo de armazenamento dos óvulos e diagnóstico de infertilidade. Com associação positiva: ano do descongelamento (melhora ao longo do tempo, refletindo avanços laboratoriais).
Em análise de sensibilidade (n = 166, apenas dados 2020-2023 com indicação registrada), a taxa de nascido vivo por mulher que congelou por motivo não médico foi numericamente maior do que por motivo médico (exceto na faixa de 40-44 anos), mas a amostra é pequena e a diferença não foi estatisticamente significativa.
Limitações
- Para 2009-2019, a indicação oncológica foi estimada por modelo preditivo (não registrada diretamente), o que pode introduzir viés ao extrapolar para esse período um modelo treinado em 2020-2023.
- O registro não rastreia gametas individualmente: em ciclos com coleta fresca concomitante ao descongelamento (33,7% dos casos), não é possível atribuir com certeza a origem (fresco vs. descongelado) de cada embrião — por isso os desfechos foram também reportados separadamente para quem usou somente óvulos descongelados.
- Seguimento mediano de apenas 2,3 anos [IQR 1,0-4,4]; os desfechos de retorno/sucesso a longo prazo refletem sobretudo as “primeiras adotantes” da PEF, podendo não representar a prática atual.
- Mudanças em prática clínica/laboratorial e nas indicações de PEF ao longo de 15 anos limitam a generalização dos desfechos de descongelamento para a prática contemporânea.
Financiamento e conflitos de interesse
Estudo financiado pelo governo australiano (Medical Research Future Fund, EPCD000014). G.M. Chambers declarou financiamento da Fertility Society of Australia and New Zealand, pago à sua instituição, para a gestão do registro ANZARD (fonte de dados do estudo). E. Keller declarou ter sido funcionária da THEMA Consulting e ser atualmente funcionária da Ferring Pharmaceuticals. I. Rodino declarou ser diretora do conselho da Fertility Society of Australia and New Zealand. Os demais autores declararam não ter conflitos de interesse.
Comentário clínico
Os dados reforçam o que já orienta o aconselhamento pré-congelamento: a PEF não é um “seguro” com cobertura garantida — com 10 anos de seguimento, pouco mais de 1 em 4 mulheres retorna para usar os óvulos, e cerca de 1 em 3 dessas tem um filho. A mediana de óvulos congelados (12) fica abaixo do que as calculadoras de sucesso recomendam para boas chances (≥ 20 em mulheres de 33 anos), o que reforça a importância de discutir número de óvulos, idade ao congelar e expectativa realista de uso desde a primeira consulta.
— Dra. Aline Leite
Precisa discutir um caso ou agendar uma avaliação em Medicina Reprodutiva?
Fonte: Fitzgerald O, et al. Hum Reprod. 2026;00(00):1-12. doi:10.1093/humrep/deag155. Resumo elaborado para fins informativos e educacionais destinado a profissionais de saúde; não substitui a leitura do artigo original nem o julgamento clínico individualizado.
Dra. Aline Leite · Ginecologia e Medicina Reprodutiva · CRM-SP 102616 · RQE 331101
2026, Semana 40
Estimulação ovariana
Protocolo two-shot: duas injeções de Corifolitropina Alfa (CFA) substituem o FSH diário? Ensaio clínico randomizado em preservação da fertilidade
Donno V, Sachs-Guedj N, Devesa M, García-Martínez S, Rodriguez I, Polyzos NP. The two-shot protocol. A randomized controlled trial of a novel two-injection ovarian stimulation strategy. Hum Reprod. 2026;00(00):1-12. doi:10.1093/humrep/deag142. NCT06134479.
Achado central
Em preservação da fertilidade eletiva, o protocolo two-shot (CFA + CFA, sem FSH diário) não demonstrou não inferioridade estatística para oócitos MII frente ao protocolo convencional CFA + rFSH diário (DM −1,04; IC95% −2,27 a 0,18; limite inferior ultrapassou a margem pré-especificada de −1,5 oócito). A diferença absoluta (~1 oócito) não parece clinicamente relevante, e nenhum caso de SHO ocorreu em nenhum dos grupos.
Pergunta clínica
A corifolitropina alfa (CFA), FSH recombinante de longa ação, já havia demonstrado equipotência a uma dose diária de ~300 UI de rFSH independentemente da reserva ovariana, permitindo substituir os primeiros 7 dias de injeções diárias por uma única aplicação. A partir do dia 8, porém, o protocolo convencional ainda exige rFSH diário até o trigger. Faltava testar se uma segunda injeção de CFA no dia 5 poderia substituir completamente o FSH diário ao longo de toda a estimulação — eliminando as injeções diárias do protocolo.
Esse tipo de simplificação é especialmente relevante na preservação da fertilidade eletiva, na doação de oócitos e em outros contextos sem indicação médica de infertilidade, nos quais reduzir o peso do tratamento (desconforto, ansiedade com a aplicação e logística de armazenamento/transporte da medicação) pode favorecer a adesão.
Métodos
- Desenho: fase III, randomizado, controlado, unicêntrico, de não inferioridade (Dexeus Fertility, Barcelona; dez/2023–jul/2025). NCT06134479.
- População: mulheres ≤ 40 anos em preservação eletiva da fertilidade (criopreservação de oócitos), CFA < 20, AMH ≤ 3 ng/mL, IMC 18–30 kg/m² e peso > 50 kg se < 36 anos. Excluídas: preservação por indicação médica, CFA ≥ 20, SOP, FSH ≥ 20, IMC fora da faixa e doença autoimune/endócrina/metabólica não tratada.
- Randomização 1:1 (n = 194): Grupo A, protocolo two-shot (n = 97) — CFA 150 mcg no dia 1 + CFA 100 mcg no dia 5. Grupo B, protocolo convencional (n = 97) — CFA 150 mcg no dia 1 seguido de rFSH 200 UI/dia a partir do dia 8.
- Ambos os grupos: supressão do pico de LH com desogestrel oral 75 mcg/dia (PPS) do início da estimulação até o dia do trigger. Trigger com GnRH-a (triptorrelina 0,2 mg) quando 2–3 folículos atingiam ≥ 18 mm. Coleta 36 h após o trigger.
- Desfecho primário: número de oócitos MII por paciente (ITT; oócitos = 0 quando não houve coleta). Margem de não inferioridade: −1,5 oócito MII (≈ 20% da média histórica esperada de 7,3; corresponde a cerca de 1 blastocisto perdido a cada 2 oócitos MII perdidos, considerando taxa de blastulação de ~52% em < 38 anos).
- Amostra: 194 pacientes (176 + 10% de perda esperada) para 80% de poder, alfa unilateral de 0,05, assumindo diferença verdadeira zero e DP de 4 oócitos MII.
- Desfechos secundários: duração da estimulação, oócitos totais, folículos ≥ 14 mm no dia do trigger, índice de output folicular (FOI), perfil hormonal (FSH, LH, E2, P4 nos dias 1, 5, 8 e trigger) e incidência de SHO.
- Análise: ITT como principal, com análise por protocolo (n = 173) como sensibilidade. ANCOVA ajustada para AMH e CFA basais, por desequilíbrio observado entre os grupos. Modelos mistos lineares para as trajetórias hormonais.
Resultados
| Desfecho | Grupo A · two-shot (n=97) | Grupo B · convencional (n=97) | DM (IC95%) |
|---|---|---|---|
| Oócitos MII (1º desfecho) | 6,14 ± 4,59 | 7,19 ± 5,67 | −1,04 (−2,27 a 0,18) |
| Oócitos recuperados (n) | 8,09 ± 5,87 | 9,11 ± 6,86 | −1,02 (−2,83 a 0,79) |
| Duração da estimulação (dias) | 10,27 ± 1,69 | 10,19 ± 1,47 | 0,09 (−0,39 a 0,56) |
| Folículos ≥ 14 mm no trigger (n) | 10,67 ± 5,36 | 11,14 ± 5,46 | −0,47 (−2,11 a 1,17) |
| FOI (%) | 68,73 ± 45,78 | 74,45 ± 54,86 | −5,73 (−20,09 a 8,63) |
Como o limite inferior do IC95% para oócitos MII (−2,27) ultrapassou a margem pré-especificada de −1,5, o protocolo two-shot não atingiu o critério formal de não inferioridade. O resultado se confirmou na análise por protocolo. Como análise de sensibilidade, diante do leve desequilíbrio basal em AMH e CFA entre os grupos (Grupo A com reserva discretamente menor), uma ANCOVA ajustada estimou DM de −0,47 (IC95% −1,52 a 0,61) — dentro da margem, mas trata-se de achado exploratório, não do desfecho primário pré-especificado.
Perfil hormonal e segurança
O FSH sérico foi marcadamente mais alto no grupo two-shot a partir do dia 8 (53,43 ± 13,28 vs. 24,60 ± 8,33 UI/L; DM 28,82; IC95% 25,39 a 32,25) e no dia do trigger (31,28 ± 9,50 vs. 24,46 ± 5,01 UI/L; DM 6,82; IC95% 4,32 a 9,32), consistente com a farmacocinética prolongada da segunda dose de CFA. Esse excesso de exposição ao FSH não se traduziu em mais folículos ou oócitos: em ambos os grupos, as concentrações de FSH permaneceram acima do limiar necessário para o desenvolvimento multifolicular entre o dia 8 e o trigger.
O estradiol foi comparável entre os grupos em todos os pontos. O LH basal (dia 1) foi discretamente maior no grupo two-shot (DM 1,00; IC95% 0,18 a 1,83) e a progesterona no dia 8 também (DM 0,26; IC95% 0,12 a 0,40), sem relevância clínica aparente segundo os autores. Não houve nenhum caso de SHO nem de síndrome do folículo vazio em nenhum dos grupos.
Limitações
- População exclusiva de boas respondedoras em preservação eletiva da fertilidade: o estudo não avalia desenvolvimento embrionário nem desfechos de gravidez, e a generalização para outras populações e prognósticos é limitada.
- Estudo unicêntrico e sem cegamento, o que pode reduzir a validade externa e introduzir viés de desempenho ou de aferição, ainda que os protocolos de monitorização e laboratório tenham sido padronizados.
- Não foram coletados desfechos relatados pela paciente (satisfação, percepção de peso do tratamento): não é possível confirmar se menos injeções melhoraram a experiência da paciente.
- Não inferioridade não foi demonstrada estatisticamente; os autores classificam os achados como encorajadores, mas não definitivos.
- Desequilíbrio basal leve em AMH e CFA entre os grupos, apesar da randomização, motivou a análise de sensibilidade por ANCOVA.
Financiamento e conflitos de interesse
O estudo foi financiado pela Fundación Santiago Dexeus Font e por um grant irrestrito da Organon. N.P. Polyzos recebeu financiamento de pesquisa pago à instituição e honorários pessoais por palestras da Organon; V. Donno recebeu honorários por palestras da mesma empresa. Os demais quatro autores declararam não ter conflitos de interesse.
Comentário clínico
O protocolo two-shot não atingiu o critério formal de não inferioridade para oócitos MII, e o limite inferior do IC95% não exclui uma redução clinicamente relevante. Ainda assim, a diferença pontual (~1 oócito) foi pequena, não houve SHO em nenhum grupo, e a proposta de eliminar as injeções diárias é atrativa em preservação eletiva e doação de oócitos.
— Dra. Aline Leite
Precisa discutir um caso ou agendar uma avaliação em Medicina Reprodutiva?
Fonte: Donno V, et al. Hum Reprod. 2026;00(00):1-12. doi:10.1093/humrep/deag142. Resumo elaborado para fins informativos e educacionais destinado a profissionais de saúde; não substitui a leitura do artigo original nem o julgamento clínico individualizado.
Dra. Aline Leite · Ginecologia e Medicina Reprodutiva · CRM-SP 102616 · RQE 331101
2026 · Semana [CONFIRMAR Nº]
Trigger de maturação ovocitária
Dual trigger (GnRH-a + hCG em baixa dose) versus GnRH-a isolado em altas respondedoras: o que a meta-análise mostra
Li Z, Shi X, Lin X, Wang J, Jin L. Dual trigger with gonadotropin-releasing hormone agonist and low-dose human chorionic gonadotropin versus gonadotropin-releasing hormone agonist alone in predicted high responders using antagonist protocol: a systematic review and meta-analysis. J Ovarian Res. 2026 (Article in Press). doi:10.1186/s13048-026-02249-w. PROSPERO CRD420251003498.
Achado central
Em altas respondedoras submetidas a protocolo antagonista, o dual trigger não melhorou a taxa de oócitos MII (WMD 0,52; IC95% −1,37 a 2,42; 11 estudos) nem os desfechos reprodutivos avaliados, e se associou a maior risco de SHO moderada/grave (RR 4,42; IC95% 2,44 a 8,01; 10 estudos; I² = 0%). O maior CPR na transferência a fresco (RR 1,33) é achado exploratório, baseado em quatro estudos.
Pergunta clínica
Em altas respondedoras (> de acordo com os autores, 15 oócitos recuperados; cerca de 7% dos ciclos de FIV e até 15% em mulheres ≤ 30 anos), o trigger com hCG convencional eleva o risco de SHO. O trigger com GnRH-a reduz esse risco, mas o pico de LH mais curto favorece disfunção lútea e, nos estudos anteriores, menores taxas de gestação e de nascidos vivos em comparação ao hCG. O dual trigger (GnRH-a com hCG ≤ 2.500 UI, geralmente 1.500–2.000 UI) foi proposto para prolongar a exposição ao LH sem reproduzir o risco do hCG em dose plena.
Os dados prévios eram divergentes: estudos retrospectivos sugeriram melhores taxas de implantação e nascidos vivos com o dual trigger, enquanto outra coorte mostrou maior risco de SHO. A única revisão sistemática anterior incluiu apenas ciclos com transferência a fresco e não realizou meta-análise.
Métodos
- Desenho: revisão sistemática e meta-análise conforme PRISMA, com registro prospectivo no PROSPERO. Bases: PubMed, Embase, Web of Science, Cochrane e CNKI.
- Seleção: 2.080 registros triados, 26 lidos na íntegra e 14 incluídos (2 ECRs e 12 coortes, publicados entre 2011 e 2024), totalizando 4.427 mulheres: 2.503 no dual trigger e 1.924 no GnRH-a isolado.
- Critérios: protocolo antagonista; dual trigger (GnRH-a + hCG ≤ 2.500 UI) versus GnRH-a. Alta resposta definida por qualquer um de: SOP; ≥ 15 folículos ou E2 > 4.000 pg/mL no dia do trigger; SHO em ciclo prévio; ciclo cancelado por risco de SHO.
- Desfechos primários: taxa de MII e SHO moderada/grave. Secundários: oócitos, embriões e embriões de boa qualidade, fertilização normal, CPR, aborto e taxa de nascidos vivos (LBR).
- Análise: RR e WMD com IC95%; efeito fixo se I² < 50% e aleatório se I² ≥ 50%. Subgrupos por estratégia de transferência (a fresco ou freeze-all) e por dose de hCG (≤ 1.000 UI ou > 1.000 UI).
- Qualidade: entre as 12 coortes (Newcastle-Ottawa), 8 foram classificadas como alta qualidade e 4 como média. Dos 2 ECRs, o de Engmann et al. teve baixo risco de viés; o de Aghahosseini et al. teve risco incerto por ausência de relato de sigilo de alocação e cegamento.
Resultados globais
| Desfecho | Estudos | Estimativa (IC95%) |
|---|---|---|
| Taxa de MII (%) | 11 | WMD 0,52 (−1,37 a 2,42); p = 0,589; I² = 72,9% |
| SHO moderada/grave | 10 | RR 4,42 (2,44 a 8,01); p < 0,001; I² = 0% |
| Oócitos recuperados (n) | 14 | WMD −0,48 (−1,39 a 0,42); p = 0,297 |
| Embriões totais (n) | 2 | WMD −0,88 (−1,86 a 0,09); p = 0,077 (estimativa imprecisa) |
| Embriões de boa qualidade (n) | 5 | WMD 0,05 (−0,01 a 0,11); p = 0,132 |
| Fertilização normal | 5 | RR 0,99 (0,96 a 1,02); p = 0,439 |
| Gravidez clínica (CPR) | 8 | RR 1,06 (0,98 a 1,15); p = 0,147 |
| Aborto | 8 | RR 1,06 (0,88 a 1,27); p = 0,555 |
| Nascidos vivos (LBR) | 4 | RR 0,99 (0,92 a 1,06); p = 0,76 |
Dois estudos em ciclos de FET reportaram taxa cumulativa de nascidos vivos, sem inclusão na meta-análise: 51,0% versus 57,5% (p = 0,328) para dual trigger versus GnRH-a em um deles; no outro, 69,70% (hCG 2.000 UI) versus 75,68% (hCG 1.000 UI) versus 74,35% (GnRH-a) (p = 0,143). Nenhuma diferença estatisticamente significativa foi observada.
Subgrupos (exploratórios)
| Subgrupo | Desfecho | Estudos | RR (IC95%) |
|---|---|---|---|
| Transferência a fresco | CPR | 4 | 1,33 (1,15 a 1,54); p < 0,001 |
| Transferência a fresco | SHO moderada/grave | 3 | 6,29 (0,94 a 41,84); não significativo, estimativa imprecisa |
| FET (freeze-all) | CPR | 5 | 0,99 (0,95 a 1,05); p = 0,72 |
| FET (freeze-all) | SHO moderada/grave | 5 | 5,61 (2,53 a 12,44); p < 0,001 |
| hCG ≤ 1.000 UI | SHO moderada/grave | 3 | 11,43 (1,49 a 87,73); p = 0,019 (imprecisão estatística) |
| hCG > 1.000 UI | SHO moderada/grave | 7 | 2,96 (1,39 a 6,28); p = 0,005 |
Nos demais desfechos (incluindo taxa de MII), não houve diferença entre os grupos em nenhum dos subgrupos. Dois pontos merecem destaque: (1) a associação com SHO persistiu mesmo com hCG ≤ 1.000 UI, o que os autores relacionam ao efeito do hCG sobre a permeabilidade vascular mediada por VEGF; (2) o ganho de CPR a fresco não teve correspondência em LBR ou LBR cumulativa, pois há apenas um estudo com LBR nesse subgrupo.
Atenção à seleção por estradiol
Griffin et al. e Martazanova et al. não registraram nenhum caso de SHO moderada/grave no grupo de dual trigger e, por isso, ficaram fora da análise de SHO. Ambos excluíram pacientes com E2 ≥ 4.000 pg/mL no dia do trigger. Engmann et al. e Alsahlani et al., que adotaram critério semelhante, relataram SHO moderada/grave em 3,8% e 3,3% do grupo de dual trigger. Já Aghahosseini et al. incluíram deliberadamente pacientes com E2 > 4.000 pg/mL e observaram SHO moderada/grave em 32,5% (dual trigger) versus 12,5% (GnRH-a).
Segundo os autores, excluir pacientes com E2 elevado pode levar à subestimação da SHO em alguns estudos e limita a generalização dos resultados. O limiar exato de E2 ainda precisa ser esclarecido.
Limitações
- 12 dos 14 estudos são observacionais, o que reduz o nível de evidência. Viés de seleção e confundimento não podem ser excluídos, e as associações não implicam causalidade.
- Heterogeneidade clínica e metodológica: definições de alta resposta, preparações de GnRH-a, dose e momento do hCG, suporte de fase lútea, estratégia a fresco versus freeze-all e definição de SHO variaram entre os estudos. Para a taxa de MII, I² = 72,9%.
- Poucos estudos em alguns desfechos (embriões totais, LBR a fresco), com intervalos de confiança amplos, especialmente nas estimativas de SHO em transferência a fresco e com hCG ≤ 1.000 UI.
- Subgrupos por estratégia de transferência e dose de hCG são exploratórios, sem testes formais de interação. Apenas quatro estudos contribuíram para a LBR agrupada.
- Análise de sensibilidade (leave-one-out) estável e funnel plots sem assimetria marcante (Egger e Begg com p > 0,05), mas o número reduzido de estudos limita a detecção de viés de publicação.
Comentário clínico
Em altas respondedoras, os dados agrupados não mostram ganho de maturação ovocitária nem de nascidos vivos com o dual trigger, e o sinal de SHO moderada/grave é consistente entre os estudos (I² = 0%), inclusive com hCG ≤ 1.000 UI. A maior taxa de gravidez na transferência a fresco vem de quatro estudos, sem dados de TNV, e não basta para embasar a escolha do dual trigger.
— Dra. Aline Leite
Precisa discutir um caso ou agendar uma avaliação em Medicina Reprodutiva?
Fonte: Li Z, et al. J Ovarian Res. 2026 (Article in Press). doi:10.1186/s13048-026-02249-w. Resumo elaborado para fins informativos e educacionais destinado a profissionais de saúde; não substitui a leitura do artigo original nem o julgamento clínico individualizado.
Dra. Aline Leite · Ginecologia e Medicina Reprodutiva · CRM-SP 102616 · RQE 331101
Endocrinologia reprodutiva
Sobrecarga de ferro e saúde reprodutiva: o que a maior revisão já publicada sobre o tema nos mostra
Carlomagno F, Tenuta M, Sansone A, Rastrelli G, Sciarra F, Cangiano B, Isidori AM, Gianfrilli D, Krausz C. Iron overload disorders in adults: a comprehensive review of gonadal function, reproductive, and sexual health. Human Reproduction Update. 2026;32(5):663-690. doi:10.1093/humupd/dmag010.
Achado central: em condições de sobrecarga de ferro (hemocromatose hereditária, talassemias, anemias transfusão-dependentes), o hipogonadismo atinge cerca de 47% dos homens e mais de 65% das mulheres (amenorreia primária + secundária), com repercussões diretas sobre espermatogênese, reserva ovariana e desfechos gestacionais. O mecanismo central proposto é a ferroptose — morte celular dependente de ferro por peroxidação lipídica — atuando sobre gonadotrofos hipofisários, células de Leydig e Sertoli, e células da granulosa.
Por que isso interessa à medicina reprodutiva
A sobrecarga de ferro compromete o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas em múltiplos níveis: os gonadotrofos são particularmente sensíveis ao depósito de ferro, resultando com frequência em hipogonadismo hipogonadotrófico; quando há também dano gonadal direto, configura-se a forma mista. Nos testículos, o ferro se acumula preferencialmente ao redor — e não dentro — dos túbulos seminíferos, mas ainda assim compromete a esteroidogênese (redução de StAR, CYP11A, 17β-HSD) e a espermatogênese via ferroptose dos gametas. Nos ovários, o Fe2+ inibe a proliferação de células da granulosa por ativação da via p38 MAPK/p53/p21, reduzindo AMH, contagem de folículos antrais e volume ovariano.
Os números da revisão
Na análise agregada de 202 homens: hipogonadismo em 47,0%. Em 1.088 homens avaliados quanto ao sêmen: azoospermia em 17,6% e outras alterações seminais em 37,5%. Em 2.134 mulheres: amenorreia primária em 45,7%, amenorreia secundária em 20,0% e menarca tardia (14,4 ± 2,1 anos, acima da média populacional). Em 3.536 gestações revisadas: técnicas de reprodução assistida foram necessárias em 19,4%, aborto espontâneo em 11,2% (comparável à população geral), cesariana em cerca de 30%, idade gestacional média ao parto de 37,1 ± 3,1 semanas e peso ao nascer de 2,64 ± 0,68 kg.
Implicações clínicas práticas
Os autores propõem algoritmos estruturados para ambos os sexos: rastreio inicial com história clínica detalhada, dosagens hormonais em jejum antes das 10h (LH, FSH, testosterona total e calculada livre em homens; LH, FSH, estradiol, AMH em mulheres), avaliação de reserva ovariana/testicular por imagem quando indicado, e discussão precoce de preservação da fertilidade — criopreservação de sêmen antes da instalação de azoospermia, e de oócitos antes do declínio significativo da função ovariana. Quanto à reposição hormonal, a via transdérmica é preferida em ambos os sexos, pelo menor impacto hepático de primeira passagem, relevante nesta população com frequente comprometimento hepático. Um ponto de atenção: a terapia quelante de ferro mostra-se predominantemente preventiva — reduz a progressão do dano gonadal quando iniciada precocemente, mas a reversão de disfunção reprodutiva já instalada permanece limitada, reforçando a importância do rastreio endócrino sistemático desde a adolescência.
Paciente com hemocromatose, talassemia ou histórico de múltiplas transfusões planejando engravidar? Avaliação especializada faz diferença no desfecho reprodutivo.
Este resumo tem finalidade informativa e educacional, dirigido a profissionais da saúde, e não substitui a leitura do artigo original ou a avaliação clínica individualizada.
Dra. Aline Leite Nogueira — CRM-SP 102616 | RQE 331101
2026 · Semana 37
Preservação da fertilidade feminina:
25 anos de avanços e um campo cada vez mais amplo
Sonmezer M, Sacinti KG, Oktay KH. Female fertility preservation: 25 years of progress, expanding indications and future prospects. Human Reproduction Update. 2026;32(2):231–259.
Que artigo é este?
Trata-se de uma revisão narrativa com busca estruturada em PubMed, Embase e Cochrane Library, priorizando revisões sistemáticas, ensaios randomizados, grandes coortes e estudos mecanísticos relevantes. O objetivo dos autores foi reunir os principais avanços recentes e oferecer uma síntese contemporânea para apoiar decisões clínicas.
O que realmente mudou em 25 anos?
No final da década de 1990, preservação da fertilidade era um campo muito mais limitado. A revisão mostra como vitrificação, protocolos de estimulação mais flexíveis, estratégias específicas para tumores hormônio-sensíveis e o amadurecimento da criopreservação de tecido ovariano transformaram a prática.
1. A indicação ficou maior do que a oncofertilidade
A revisão organiza a preservação da fertilidade dentro de um espectro amplo de ameaças à função reprodutiva. Além de quimioterapia e radioterapia, entram doenças hematológicas, imunológicas, metabólicas e genéticas, cirurgias gonadais, endometriose e a preservação planejada por declínio reprodutivo relacionado à idade.
Esse alargamento muda a consulta: a pergunta deixa de ser apenas “esta paciente fará quimioterapia?” e passa a ser “há risco previsível de perda de reserva ovariana ou de oportunidade reprodutiva que justifique discutir preservação agora?”.
2. Gonadotoxicidade: menstruar não significa reserva preservada
Os autores revisam os mecanismos de dano ovariano por quimioterapia e radioterapia. Agentes alquilantes permanecem entre os principais responsáveis por perda folicular, com dano por quebras de dupla fita de DNA e apoptose. A intensidade do risco depende do agente, dose, número de ciclos, idade e reserva ovariana prévia.
3. Endometriose: o melhor momento para aconselhar pode ser antes da cirurgia
A endometriose ganha uma seção própria na revisão. Os autores destacam que idade é um dos principais determinantes da resposta ovariana e da taxa cumulativa de nascido vivo após criopreservação de oócitos. Em dados observacionais citados, pacientes submetidas a cirurgia ovariana apresentaram menor número de oócitos congelados por ciclo do que aquelas com endometrioma in situ.
A mensagem prática é simples: em pacientes com doença ovariana importante, especialmente quando há previsão de cirurgia, o aconselhamento reprodutivo deve ocorrer antes do procedimento — não depois de constatada a redução da reserva.
4. Preservação planejada: idade continua sendo a variável que não conseguimos contornar
A vitrificação tornou a criopreservação de oócitos uma opção estabelecida, mas não elimina o efeito da idade sobre competência oocitária. A revisão cita que a preservação eletiva deve ser idealmente planejada antes dos 40 anos e ressalta a persistência de baixa informação, custos e estigma como barreiras. Mais de 90% das mulheres que realizaram congelamento planejado em uma das séries citadas relataram não se arrepender da decisão.
Para o aconselhamento, portanto, o ponto não é vender uma promessa de “fertilidade congelada”, mas discutir probabilidades de forma realista: idade no momento da coleta, número de oócitos obtidos e eventual necessidade de mais de um ciclo importam.
5. Random start: a urgência deixou de significar necessariamente perder a oportunidade
A possibilidade de iniciar estimulação ovariana fora do início convencional da fase folicular foi uma das mudanças mais relevantes da oncofertilidade. Segundo a revisão, aplicabilidade, eficácia e segurança dos protocolos random start já foram demonstradas em múltiplos estudos, incluindo meta-análises.
Isso é especialmente importante quando existe uma janela curta antes do tratamento oncológico: em grande parte das pacientes, não é necessário aguardar a próxima menstruação para começar.
6. Tumores hormônio-sensíveis: estimulação não é sinônimo de abordagem convencional
A incorporação de agentes antiestrogênicos aos protocolos de estimulação permitiu ampliar a preservação em pacientes com tumores hormônio-sensíveis, particularmente câncer de mama. O princípio é reduzir a exposição estrogênica durante a estimulação, sempre dentro de decisão individualizada e integrada à oncologia.
7. Tecido ovariano: de estratégia excepcional a opção estabelecida
A criopreservação de tecido ovariano é particularmente valiosa quando não há tempo para estimulação ou em meninas pré-púberes. Além de armazenar um grande número de folículos primordiais, o transplante posterior pode restaurar função endócrina e permitir concepção espontânea ou por reprodução assistida.
*Faixas reproduzidas da Tabela 3 da revisão; refletem estudos e populações heterogêneas e não devem ser usadas isoladamente para prognóstico individual.
8. Análogos de GnRH durante a quimioterapia: proteção ovariana não equivale a preservação comprovada da fertilidade
Este é um ponto em que a linguagem precisa ser precisa. Os autores reconhecem redução de insuficiência ovariana prematura em algumas populações tratadas com análogos de GnRH concomitantemente à quimioterapia, mas destacam que não foi demonstrada melhora em taxas de nascido vivo.
9. O futuro: preservar fertilidade ou retardar o envelhecimento ovariano?
A parte mais provocativa da revisão está nas estratégias ainda emergentes: crescimento in vitro de folículos primordiais, gametogênese in vitro, farmacoproteção não supressiva contra dano ovariano, remoção in vitro de células malignas de tecido ovariano e o uso de tecido ovariano criopreservado com a perspectiva de postergar menopausa e envelhecimento reprodutivo.
São caminhos promissores, mas em diferentes estágios de desenvolvimento. O artigo separa claramente as técnicas estabelecidas das opções emergentes — distinção essencial para evitar que inovação seja comunicada como tratamento já validado.
O que este artigo muda na prática?
1. Perguntar mais cedo. A oportunidade de preservar fertilidade muitas vezes é perdida por encaminhamento tardio, não por falta de tecnologia.
2. Pensar além do câncer. Endometriose, risco de insuficiência ovariana, doenças sistêmicas, cirurgias gonadais e adiamento da maternidade também merecem entrar no raciocínio.
3. Escolher a estratégia, não apenas a técnica. Oócitos, embriões e tecido ovariano têm indicações, limitações e tempos diferentes; em alguns casos, abordagens combinadas aumentam as possibilidades.
4. Não usar menstruação como marcador de segurança. Função menstrual preservada não exclui perda significativa de reserva ovariana após tratamento gonadotóxico.
5. Comunicar probabilidades com transparência. Preservar material reprodutivo aumenta possibilidades futuras, mas não garante gestação ou nascido vivo.
Para o ginecologista que não trabalha dentro de um laboratório de FIV
Talvez este seja o ponto mais útil da revisão: não é necessário executar todas as técnicas para fazer boa preservação da fertilidade. O papel do médico que acompanha a paciente é reconhecer o risco, iniciar a conversa no momento certo e encaminhar antes que a janela de oportunidade se feche.
Conclusão
A principal mensagem de Sonmezer, Sacinti e Oktay não é que surgiu uma única técnica revolucionária. É que, ao longo de 25 anos, a preservação da fertilidade amadureceu de uma intervenção de exceção para uma área estruturada da medicina reprodutiva.
Hoje temos mais opções, mais flexibilidade e indicações mais amplas. O desafio passa a ser identificar quem pode se beneficiar, em que momento e com qual estratégia — sem promessas excessivas e sem perder a oportunidade por uma conversa que aconteceu tarde demais.
Tem dúvidas sobre indicação, momento ou estratégia de preservação da fertilidade? Agende uma consulta.
Referência: Sonmezer M, Sacinti KG, Oktay KH. Female fertility preservation: 25 years of progress, expanding indications and future prospects. Human Reproduction Update. 2026;32(2):231–259. doi:10.1093/humupd/dmaf026.
Nota editorial: este boletim sintetiza uma revisão narrativa e foi escrito para atualização médica em linguagem acessível. Os números apresentados devem ser interpretados dentro das populações e estudos citados pelos autores; não substituem aconselhamento individualizado.
Dra. Aline Leite — CRM-SP 102616 | RQE 331101
Fator ponderal / Infertilidade
Terapia medicamentosa para obesidade e otimização da fertilidade em mulheres em idade reprodutiva
Duah J, Seifer DB. Medical therapy to treat obesity and optimize fertility in women of reproductive age: a narrative review. Reproductive Biology and Endocrinology. 2025;23:2. https://doi.org/10.1186/s12958-024-01339-y
Achado central
Os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP1-RAs) — liraglutida, semaglutida e tirzepatida — promovem perda ponderal expressiva (6% a mais de 22%, conforme o agente) e parecem exercer efeitos benéficos sobre a função reprodutiva feminina independentes da perda de peso, incluindo ação anti-inflamatória sobre gônadas e endométrio e melhora da morfologia ovariana policística. A revisão posiciona os GLP1-RAs como opção de primeira linha no aconselhamento pré-concepcional em mulheres com sobrepeso ou obesidade.
Mecanismo e eficácia dos GLP1-RAs
Os GLP1-RAs atuam sobre receptores no pâncreas, trato gastrointestinal e sistema nervoso central, aumentando a sensibilidade à insulina, retardando o esvaziamento gástrico e reduzindo o apetite e o chamado “ruído alimentar”. Em termos de eficácia, a liraglutida (Saxenda) produz redução média de 6% do peso corporal em 56 semanas; a semaglutida (Wegovy/ Ozempic), de aproximadamente 15% a 18% em 68 semanas; e a tirzepatida (Mounjaro), que associa ação sobre GLP-1 e GIP, cerca de 23% em um ano, com relatos anedóticos de perdas superiores a 40%. Estudos preliminares indicam presença de receptores de GLP-1 no trato reprodutivo, com efeitos anti-inflamatórios e antifibróticos sobre gônadas e endométrio, além de reversão da morfologia ovariana policística e redução dos androgênios circulantes em mulheres com SOP.
Comparação com outras terapias farmacológicas
O Contrave (naltrexona/bupropiona) produz perda ponderal mais modesta (cerca de 5,4% versus 1,3% do placebo), atuando sobre vias de recompensa alimentar; não há evidência de efeito direto sobre a fertilidade, e recomenda-se washout de ao menos 2 semanas antes da concepção. O Qsymia (fentermina/topiramato) alcança maior perda de peso (~11%), mas o componente topiramato é teratogênico comprovado (fenda labial/palatina), exigindo contracepção obrigatória e testes de gravidez mensais durante o uso — a fentermina isolada, por outro lado, não parece conferir risco fetal e foi associada a melhora nos desfechos de fertilidade em estudo retrospectivo. O orlistate, hoje pouco utilizado por eficácia limitada (~2,4% de perda em 4 anos) e efeitos colaterais gastrointestinais, não demonstrou benefício sobre desfechos reprodutivos em ensaios controlados, havendo inclusive tendência não significativa de maior taxa de aborto, possivelmente relacionada à deficiência de vitamina D induzida pela droga.
Segurança na periconcepção
Os dados de exposição gestacional a GLP1-RAs no primeiro trimestre, ainda limitados, não revelaram até o momento aumento no risco de malformações maiores. Estudos observacionais multicêntricos recentes não identificaram padrão específico de defeitos congênitos em gestações expostas. Por precaução regulatória, os fabricantes recomendam suspensão de 2 meses antes da concepção para semaglutida e tirzepatida (considerando meia-vida de aproximadamente uma semana) e de 10 a 14 dias para liraglutida. Não há dados conclusivos sobre segurança durante a lactação, e a redução de apetite associada a esses fármacos pode comprometer a produção de leite.
Terapia medicamentosa versus cirurgia bariátrica
A cirurgia bariátrica continua sendo indicada para pacientes com IMC > 35 kg/m², independentemente de comorbidades, ou > 30 kg/m² na presença de condições associadas à obesidade. Embora estudos de coorte sugiram melhora da fertilidade após a cirurgia, há também relatos de aumento no risco de restrição de crescimento intrauterino e de deficiências nutricionais maternas (ferro, B12, folato, vitamina D) em gestações subsequentes, o que justifica a recomendação de aguardar 1 a 2 anos antes de tentar conceber — período que pode ser inviável para pacientes com reserva ovariana diminuída ou idade materna avançada. Os autores destacam a ausência de estudos comparativos robustos entre GLP1-RAs e cirurgia bariátrica quanto a desfechos reprodutivos.
Do ponto de vista clínico, esta revisão reforça uma mudança de paradigma no aconselhamento pré-concepcional de pacientes com sobrepeso ou obesidade: os GLP1-RAs, além do impacto ponderal, parecem atuar diretamente sobre o eixo reprodutivo, especialmente em quadros de SOP. A decisão terapêutica, no entanto, deve considerar o tempo disponível até a tentativa de concepção, a necessidade de washout, o custo e a disponibilidade do medicamento — fatores que, na prática, frequentemente determinam a viabilidade do tratamento tanto quanto sua eficácia teórica.
— Dra. Aline Leite
Tem dúvidas sobre manejo ponderal e fertilidade? Agende uma consulta.
Fonte: Duah J, Seifer DB. Reproductive Biology and Endocrinology. 2025;23:2. Conteúdo destinado a profissionais de saúde, com finalidade informativa e educacional, sem caráter de recomendação clínica individualizada.
Dra. Aline Leite — CRM-SP 102616 | RQE 331101
Variação do tempo de ovulação e do ciclo menstrual: o que mostra a maior coorte prospectiva de longo prazo já publicada
Malliou-Becher MN, Herrmann PM, Freis A, et al. Variations in ovulation time and menstrual cycle characteristics: analysis of a prospective long-term cohort study. Human Reproduction, 2026;41(6):959–968.
Desenho do estudo
Coorte prospectiva observacional (jan/1985–jul/2019), com 1.923 mulheres e 43.999 ciclos registrados pelo método sintotérmico Sensiplan (dupla checagem: muco cervical + temperatura basal). Após critérios de inclusão (18–44 anos, sem uso de hormônios reprodutivos, exclusão de puerpério/amenorreia/pós-uso de contracepção hormonal recente), o grupo principal totalizou 1.051 mulheres com 12 ciclos cada (12.612 ciclos), além de um subgrupo de 420 ciclos de concepção. A ovulação foi definida como o dia anterior à elevação sustentada da temperatura basal, confirmada pelo pico de muco cervical — método com 89% de concordância com ovulação confirmada por foliculometria ultrassonográfica (±1 dia).
Duração do ciclo
Mediana de 28 dias (média 29,66; DP 7,55; amplitude de 209 dias no grupo principal). Apenas 52,7% das mulheres mantiveram ciclos entre 23–35 dias em todos os 12 ciclos observados, e a variação mediana entre o ciclo mais curto e o mais longo foi de 8 dias. Houve redução significativa do comprimento do ciclo com a idade (ANOVA, P<0,001): mediana de 29 dias (18–29 anos) caindo para 27 dias (40–44 anos). Mulheres com variação ≥1 semana eram significativamente mais jovens (28,50 ± 5,49 anos) do que aquelas com variação ≤1 semana (29,47 ± 5,64 anos; P=0,005).
Tempo de ovulação
Mediana no dia 16 (média 17,22 ± 5,85). No grupo de concepção, 45,7% das gestações resultaram de ovulação após o dia 16. A variação intraindividual do dia de ovulação foi ≥7 dias em 54,8% das mulheres, e ≥4 dias em 96,5% — variação mediana também de 8 dias. Houve efeito significativo da idade (P<0,001): mulheres de 35–39 anos foram o grupo mais estável, enquanto 18–24 e 40–44 anos apresentaram maior variabilidade.
Tendência ao longo de 34 anos
Houve aumento discreto, porém estatisticamente significativo, do comprimento médio do ciclo entre 1985 e 2019 (β=0,0161; P=0,0306), correspondendo a cerca de 0,55 dia ao longo do período. A variabilidade intraindividual também mostrou tendência de aumento, mas sem significância estatística (P=0,2173).
Limitações
Comorbidades como hiperprolactinemia, obesidade e SOP não foram sistematicamente excluídas, embora o critério de ≥12 ciclos completos tenda a excluir distúrbios hormonais graves. Possível viés de seleção sociodemográfica (usuárias de Sensiplan, predominantemente de língua alemã e escolaridade média-alta), o que pode limitar a generalização para populações mais diversas.
Na prática clínica, esse estudo reforça um ponto que já observamos no consultório: orientar uma paciente a “calcular” a ovulação pelo dia 14 do calendário é, na maioria das vezes, impreciso. Com metade das ovulações ocorrendo fora da janela do dia 12 ao 16 — e quase metade das concepções do próprio estudo acontecendo após o dia 16 —, o método de calendário isolado tende a subestimar a real variabilidade de cada ciclo, especialmente em mulheres mais jovens, que aqui apresentaram a maior instabilidade.
Esse é também um ponto importante ao orientar pacientes que utilizam aplicativos de previsão de ciclo. A maioria desses aplicativos estima a ovulação a partir de médias de ciclos anteriores ou de fórmulas fixas de calendário, sem incorporar sinais biológicos individuais do ciclo atual. Vale destacar que, entre os sinais observados no estudo, o muco cervical tem valor preditivo — sua mudança de padrão sinaliza a proximidade da ovulação, ainda antes que ela ocorra, permitindo à paciente identificar a janela fértil em tempo real. Já a temperatura basal é apenas confirmatória: sua elevação só se manifesta depois que a ovulação já aconteceu, funcionando como checagem retrospectiva, não como ferramenta de previsão. Isso reforça que a orientação para identificar o período fértil deve priorizar a observação do muco cervical, com a temperatura basal como confirmação posterior — e não como ferramenta preditiva substituta de um app de calendário.
Também vale destacar o achado de que a variabilidade do ciclo tende a diminuir, mas não desaparecer, entre os 35 e 39 anos, o que reforça a importância de investigar precocemente qualquer irregularidade persistente, independentemente da faixa etária.
— Dra. Aline Leite
Percebeu irregularidade no seu ciclo ou dificuldade para identificar sua janela fértil?
Fonte: Malliou-Becher MN, Herrmann PM, Freis A, et al. Variations in ovulation time and menstrual cycle characteristics: analysis of a prospective long-term cohort study. Human Reproduction, 2026;41(6):959–968. doi: 10.1093/humrep/deag057
Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas, sem inferência de causalidade.
Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva
Suplementação pré-concepcional: o que os dados mostram sobre multivitamínicos, casais e chance de nascimento vivo
Sealy MJ, et al. Association between preconception supplement use and live birth among couples seeking fertility treatment. Fertility and Sterility, 2026;126:391–406.
Publicado em agosto de 2026 na Fertility and Sterility, o estudo é uma análise secundária de duas coortes prospectivas americanas — FAZST e IDEAL —, envolvendo 2.370 casais em investigação ou tratamento de infertilidade, acompanhados por até 18 meses. O objetivo foi descrever o padrão de uso de suplementos entre parceiras e parceiros e avaliar a associação desse uso com nascimento vivo e perda gestacional.
Frequência de uso
O uso de suplementos mostrou-se bastante comum na população estudada. Entre as mulheres, 67% relataram uso de multivitamínico, com destaque também para ácido fólico (10%), ômega-3 (8,3%), vitamina C (7,1%) e cálcio (6,8%). Entre os homens, 37% utilizavam multivitamínico, além de ômega-3 (9,4%), vitamina C (9%), CoQ10 e vitamina B12 (4,9% cada).
Multivitamínico feminino e nascimento vivo
O uso de multivitamínico pelas mulheres associou-se a maior chance de nascimento vivo (RR ajustado 1,22; IC95% 1,05–1,41), correspondendo a cerca de 6 nascidos vivos adicionais a cada 100 mulheres usuárias. Quando ambos os parceiros utilizavam multivitamínico, ou apenas a parceira, também houve associação positiva; o uso exclusivo pelo parceiro masculino não mostrou o mesmo efeito.
Suplementação masculina
Para os homens, não houve associação entre uso de multivitamínico — ou de suplementos individuais como CoQ10, zinco, vitamina C, B12 e ômega-3 — e a chance de nascimento vivo. Esse achado é consistente com os resultados nulos já observados no ensaio original de suplementação com ácido fólico e zinco em homens.
Combinações de suplementos
Entre as combinações avaliadas, a associação de multivitamínico com ácido fólico apresentou a maior força de associação com nascimento vivo (RR ajustado 1,46; IC95% 1,16–1,85). Os autores ressaltam, no entanto, que se trata de um estudo observacional, o que não permite inferir causalidade.
Influência do tipo de tratamento
Um achado relevante foi a estratificação por tipo de tratamento: o benefício do multivitamínico feminino permaneceu significativo apenas entre as mulheres que não realizaram tratamento de fertilidade (RR 1,44; IC95% 1,00–2,08). Entre aquelas submetidas a IIU/indução da ovulação ou a FIV, não houve associação estatisticamente significativa — sugerindo que o efeito, se existente, pode ser diluído pela maior eficácia dos tratamentos de alta complexidade.
Perda gestacional
Não foi encontrada associação entre uso de multivitamínico — ou de qualquer suplemento isolado, em homens ou mulheres — e risco de perda gestacional antes de 20 semanas.
Limitações
O próprio estudo aponta limitações importantes: caráter observacional, uso autorreferido de suplementos, ausência de dados sobre dose e fabricante, e possível viés do “usuário saudável” (indivíduos que suplementam tendem a ter hábitos de vida mais favoráveis de forma geral, o que pode confundir os resultados).
— Dra. Aline Leite
Está se preparando para engravidar ou iniciando investigação de fertilidade?
Fonte: Sealy MJ, et al. Association between preconception supplement use and live birth among couples seeking fertility treatment. Fertility and Sterility, 2026;126:391–406.
Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas, sem inferência de causalidade.
Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva
Boletim Científico · Reprodução Assistida
Blastocisto ou D3? Nem sempre o blastocisto é a escolha com maior chance de nascido vivo
📌 Cápsula do achado
Em pacientes que obtêm apenas um zigoto após a fertilização, um estudo de emulação de ensaio clínico (target trial emulation) encontrou taxa de nascido vivo por casal de 12,5% com transferência em estágio de clivagem (D2/D3) versus 10,1% com transferência em blastocisto (D5/D6) — risco relativo ajustado de 1,24 (IC 95%: 1,15–1,50). O efeito foi maior a partir dos 35 anos, associado à queda na taxa de desenvolvimento embrionário até o estágio de blastocisto.
O estudo
Nas últimas duas décadas, a transferência de blastocistos tornou-se o padrão predominante em reprodução assistida, sustentada por ensaios randomizados que demonstraram melhores taxas de implantação e nascido vivo por transferência. No entanto, esses ensaios incluíram majoritariamente pacientes de bom prognóstico, com três ou mais zigotos disponíveis. Permanecia em aberto se esse benefício se estende a pacientes com apenas um zigoto.
Fitzgerald e colaboradores (Centre for Big Data Research in Health, UNSW Sydney) analisaram dados do registro nacional de reprodução assistida da Austrália e Nova Zelândia (ANZARD), incluindo 11.163 mulheres nulíparas em seu primeiro ciclo de FIV/ICSI com apenas um zigoto após a fertilização. Como um ensaio randomizado seria inviável nessa população, os autores utilizaram a metodologia de target trial emulation, combinada a g-computation, para simular um ensaio clínico idealizado a partir dos dados observacionais. O desfecho primário foi a taxa de nascido vivo por casal.
Principais resultados
A transferência em D3 apresentou maior taxa de nascido vivo por casal em comparação ao cultivo estendido até blastocisto:
- 12,5% com transferência em D3
- 10,1% com transferência em blastocisto
- Risco relativo ajustado de 1,24 (IC 95%: 1,15–1,50)
O benefício relativo aumentou com a idade materna:
- 35 anos: RR 1,34 (IC 95%: 1,15–1,57)
- 40 anos: RR 1,51 (IC 95%: 1,25–1,80)
O achado está relacionado às taxas de sobrevivência embrionária estimadas pelos modelos: cerca de 92% dos zigotos atingem o estágio de clivagem, enquanto apenas 59% (35 anos) e 50% (40 anos) atingem o estágio de blastocisto. Ao prolongar o cultivo de um único embrião, existe probabilidade relevante de que nenhum embrião esteja disponível para transferência, eliminando a chance de gravidez naquele ciclo.
O que este estudo acrescenta à prática
Este trabalho reforça que os benefícios do blastocisto observados em pacientes de bom prognóstico não podem ser generalizados de forma automática. Na prática clínica, é comum comparar taxas de sucesso por transferência — nesse recorte, o blastocisto de fato apresenta melhor desempenho. Para a paciente, contudo, a pergunta relevante é outra: qual estratégia oferece maior chance de nascido vivo naquele ciclo, considerando também o risco de não haver embrião para transferir.
O cultivo até D5 permite seleção natural dos embriões com maior potencial de desenvolvimento in vitro. Quando há apenas um zigoto, no entanto, essa seleção pode resultar simplesmente na ausência de embrião para transferência — enquanto a transferência precoce permite que o embrião continue seu desenvolvimento no ambiente uterino.
Esse equilíbrio é particularmente relevante para pacientes com:
- baixa resposta ovariana;
- idade materna avançada;
- baixa reserva ovariana;
- apenas um zigoto disponível após a fertilização.
Limitações
O estudo não é randomizado. O dia originalmente planejado para a transferência não estava registrado no banco de dados, exigindo modelagem estatística para inferir essa intenção; também não havia informação sobre qualidade embrionária, e os resultados dependem das premissas dos modelos utilizados. Essas limitações não permitem afirmar superioridade da transferência em D3 em todos os cenários, mas sustentam a mensagem central: a estratégia ideal depende do prognóstico individual da paciente.
Aplicação clínica
A decisão sobre o dia da transferência embrionária não deve seguir protocolo rígido. Fatores como idade materna, reserva ovariana, resposta à estimulação e número de embriões disponíveis devem orientar essa escolha de forma individualizada — especialmente em pacientes com apenas um zigoto, nas quais garantir que exista um embrião disponível para transferência pode ser mais determinante do que aguardar o estágio de blastocisto.
Fonte: Fitzgerald O, Li W, Vallence C, Chambers GM, Rombauts L. Cleavage stage versus blastocyst stage transfers in patients with a single zygote: an emulated target trial. Human Reproduction, 2026;41(7):1106–1114. doi: 10.1093/humrep/deag075
Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais e de emulação de ensaios clínicos devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas.
Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva
Insuficiência Ovariana Prematura: o que diz a ciência mais recente
Guia clínico baseado em diretrizes internacionais (ESHRE/ASRM/IMS/CRE) e estudos publicados nos últimos cinco anos.
O que é a IOP?
A Insuficiência Ovariana Prematura é a perda da função dos ovários antes dos 40 anos, identificada por ciclos menstruais irregulares ou ausentes por 4 meses ou mais, associados a exames de sangue que confirmam a queda da reserva hormonal. É diferente da menopausa que ocorre naturalmente por volta dos 50 anos: por acometer mulheres ainda jovens, a IOP exige uma abordagem própria, que vai muito além do simples controle de sintomas.
Por que isso acontece?
Os ovários possuem uma reserva limitada de óvulos, definida ainda antes do nascimento. Na IOP, essa reserva se esgota de forma precoce por três caminhos principais: uma reserva inicial já reduzida, uma perda acelerada dos folículos ao longo da vida, ou uma falha na maneira como os folículos respondem aos hormônios que estimulam a ovulação. O resultado é sempre o mesmo: níveis baixos de estrogênio, hormônio responsável por proteger ossos, coração, pele e o bem-estar emocional da mulher.
Quais são as causas?
Em grande parte das pacientes, a causa não é identificada mesmo após investigação completa. Quando encontrada, costuma se encaixar em um destes grupos:
- Genéticas — como a síndrome de Turner ou alterações no gene FMR1;
- Autoimunes — quando o próprio organismo ataca o tecido ovariano, muitas vezes associado a doenças da tireoide;
- Iatrogênicas — decorrentes de quimioterapia, radioterapia ou cirurgias ovarianas;
- Ambientais e infecciosas — incluindo evidências recentes sobre o impacto de infecções virais na reserva ovariana.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico combina história clínica e exames de sangue — principalmente o FSH, dosado em duas ocasiões com um mês de intervalo. A partir da confirmação, exames complementares (função da tireoide, cariótipo e, em casos selecionados, testes genéticos) ajudam a identificar a causa e a definir o melhor plano de cuidado. Quanto mais cedo a investigação começa, mais cedo o tratamento adequado pode ser iniciado.
Como é o tratamento?
A reposição hormonal é a base do tratamento e deve ser mantida, em geral, até a idade média da menopausa natural — não se trata de um tratamento apenas para sintomas, mas de uma proteção real para ossos, coração e saúde emocional a longo prazo. O esquema é sempre individualizado, considerando idade, sintomas e desejo reprodutivo. Mulheres que desejam engravidar devem ser orientadas sobre as opções de reprodução assistida, já que a gravidez espontânea é rara, mas não impossível. Em situações de risco à fertilidade — como antes de tratamentos oncológicos — a preservação de óvulos ou tecido ovariano deve ser discutida com antecedência.
O acompanhamento não para no diagnóstico
A IOP pede um cuidado contínuo, com metas diferentes ao longo do tempo:
- No curto prazo, o foco é confirmar o diagnóstico, iniciar o tratamento hormonal e acolher o impacto emocional da notícia;
- No médio prazo, acompanha-se a resposta ao tratamento e ajustam-se hábitos de vida — alimentação, atividade física e sono;
- No longo prazo, o cuidado se estende por toda a vida, com avaliação periódica da saúde óssea, cardiovascular e emocional — pesquisas recentes mostram maior risco de acúmulo de outras condições de saúde ao longo do tempo quando não há acompanhamento adequado.
O que toda paciente precisa saber
- IOP não é “menopausa precoce” comum — é uma condição médica que merece investigação própria.
- O diagnóstico não fecha a porta para a maternidade: existem caminhos, e eles devem ser conversados sem pressa.
- O tratamento hormonal é proteção para o futuro, não apenas alívio para o presente.
- O impacto emocional é real e válido — buscar apoio psicológico faz parte do cuidado.
- O acompanhamento é para a vida toda, com uma equipe que caminha junto com você.
— Dra. Aline Leite
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Fontes consultadas
- ESHRE/ASRM/IMS/CRE WHiRL. Premature Ovarian Insufficiency: International Guideline 2024. Human Reproduction Open, 2024.
- Pravatta-Rezende G, et al. Premature ovarian insufficiency: updated concepts in diagnosis and hormonal treatment strategies. Clinics, 2025.
- Vogt EC, et al. Improving diagnostic precision in primary ovarian insufficiency. Human Reproduction, 2024.
- Heddar A, et al. Genetic landscape of a large cohort of Primary Ovarian Insufficiency. EBioMedicine, 2022.
- Shea AK, et al. Association between primary ovarian insufficiency and multimorbidity. Fertility and Sterility, 2025.
- Butts SF. The overlooked and undertreated perils of premature ovarian insufficiency. Cleveland Clinic Journal of Medicine, 2025.
Todas as informações publicadas neste site têm cunho educacional; os conteúdos são previamente revisados pela médica ginecologista Dra. Aline Leite, CRM-SP 102616 | RQE 331101, responsável pela clínica, e não podem ser consideradas diagnóstico. Para tal, são necessários consulta e exames preliminares.
Fragmentação do DNA espermático: quando testar, como interpretar e o que fazer diante de um resultado alterado
Esteves SC, Humaidan P. Sperm DNA fragmentation: how to test, when to test, and what to do with abnormal results — a pragmatic mini-review for clinical practice. Human Reproduction, 2026;41(7):1024–1039.
Um homem pode ter espermograma completamente normal e ainda assim apresentar dano genômico relevante nos espermatozoides. Quando a carga de lesões ultrapassa a capacidade de reparo do oócito, aumentam as chances de pior desenvolvimento embrionário, falha de implantação e aborto espontâneo — com a idade materna influenciando diretamente essa capacidade de reparo. A revisão organiza de forma prática quando solicitar o exame (SDF >20% já é zona de atenção, >30% é fragmentação elevada), reforçando que não há indicação para solicitação rotineira na investigação inicial da infertilidade.
— Dra. Aline Leite
