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Blastocisto ou D3? Nem sempre o blastocisto é a escolha com maior chance de nascido vivo

Blastocisto ou D3? Nem sempre o blastocisto é a escolha com maior chance de nascido vivo
Imagem meramente ilustrativa (Banco de imagens: Shutterstock)
19/07/2026

 

Boletim Científico · Transferência Embrião

📌 Cápsula do achado

Em pacientes que obtêm apenas um zigoto após a fertilização, a transferência no estágio de clivagem (D2/D3) esteve associada a maior taxa de nascidos vivos por casal do que a transferência em blastocisto (D5/D6). O benefício foi ainda mais evidente em mulheres com 35 anos ou mais, provavelmente devido ao maior risco de o embrião interromper seu desenvolvimento durante o cultivo prolongado.

O estudo

Nas últimas duas décadas, a transferência de blastocistos tornou-se praticamente o padrão da reprodução assistida. Estudos randomizados demonstraram melhores taxas de implantação, gravidez e nascimento vivo por transferência quando comparada à transferência de embriões em estágio de clivagem. Entretanto, esses estudos incluíram predominantemente pacientes de bom prognóstico, geralmente com três, cinco ou mais zigotos disponíveis.

A grande dúvida permanece: esse benefício também existe para pacientes que produzem apenas um embrião?

Para responder essa pergunta, os autores analisaram o banco nacional de reprodução assistida da Austrália e Nova Zelândia, incluindo 11.163 mulheres nulíparas, em seu primeiro ciclo de FIV/ICSI, que obtiveram apenas um zigoto após a fertilização. Como um estudo randomizado seria extremamente difícil de realizar nessa população, utilizaram uma metodologia moderna de inferência causal denominada Target Trial Emulation, que busca reproduzir, a partir de dados observacionais, as condições de um ensaio clínico randomizado.

O desfecho principal foi a taxa de nascimento vivo por casal.

Principais resultados

O resultado foi contrário ao paradigma atual. A estratégia de transferência em D3 apresentou maior taxa de nascimento vivo por casal quando comparada ao cultivo até blastocisto:

  • 12,5% para transferência em D3
  • 10,1% para transferência em blastocisto

Isso correspondeu a um aumento relativo de 24% na chance de nascimento vivo (RR ajustado 1,24).

O benefício tornou-se ainda mais evidente com o avanço da idade feminina:

  • 35 anos: benefício relativo de 34%
  • 40 anos: benefício relativo de 51%

O motivo é bastante intuitivo. Segundo os modelos utilizados no estudo:

  • aproximadamente 92% dos zigotos chegam ao estágio de clivagem
  • apenas 59% chegam ao blastocisto aos 35 anos
  • esse número cai para 50% aos 40 anos

Em outras palavras, ao insistirmos no cultivo prolongado de um único embrião, existe uma probabilidade considerável de que nenhum embrião esteja disponível para transferência, eliminando completamente a chance daquele ciclo resultar em gravidez.

O que este estudo muda na prática?

Este trabalho traz uma mensagem extremamente importante: os benefícios do blastocisto não podem ser generalizados para todas as pacientes.

Na prática clínica, costumamos analisar as taxas de sucesso por transferência, e realmente os blastocistos apresentam melhor desempenho. Entretanto, para a paciente, a pergunta mais importante é outra: “Qual estratégia me dá maior chance de levar um bebê para casa neste ciclo?” Quando existe apenas um embrião disponível, a resposta pode ser diferente.

O cultivo até D5 permite uma seleção natural dos embriões com maior potencial de desenvolvimento. Porém, quando há apenas um zigoto, essa “seleção” pode simplesmente resultar na ausência de transferência. O estudo mostra exatamente esse equilíbrio entre duas estratégias:

  • Transferir mais cedo, aceitando que alguns embriões talvez não evoluíssem até blastocisto in vitro, mas poderiam continuar seu desenvolvimento no ambiente uterino
  • Cultivar até blastocisto, correndo o risco de perder completamente a oportunidade de transferência

Esse conceito é particularmente relevante para pacientes com:

  • baixa resposta ovariana
  • idade materna avançada
  • baixa reserva ovariana
  • apenas um zigoto após a fertilização

Limitações importantes

Apesar da robustez da amostra, este não é um estudo randomizado. Os autores utilizaram um sofisticado modelo estatístico para simular um ensaio clínico, mas algumas limitações permanecem:

  • o dia inicialmente planejado para a transferência não estava registrado no banco de dados
  • não havia informação sobre qualidade embrionária
  • os resultados dependem dos pressupostos utilizados pelos modelos estatísticos

Essas limitações impedem afirmar que D3 seja superior em todos os cenários, mas não diminuem a relevância da principal mensagem do estudo: a estratégia ideal depende do prognóstico da paciente.

Aplicação clínica

Este é um excelente exemplo de como a medicina reprodutiva está caminhando para uma abordagem cada vez mais personalizada.

Durante muitos anos, o blastocisto foi considerado a estratégia ideal para praticamente todos os ciclos de FIV. Este estudo mostra que essa conclusão foi construída principalmente com base em pacientes de bom prognóstico e que sua extrapolação para mulheres com apenas um zigoto pode não ser adequada.

Na prática, isso reforça que a decisão sobre o dia da transferência não deve seguir um protocolo rígido, mas considerar fatores como idade materna, reserva ovariana, resposta à estimulação e número de embriões disponíveis.

Para o especialista em reprodução humana, a principal lição é clara: nem sempre o melhor embrião é aquele que chega ao blastocisto; às vezes, a melhor estratégia é garantir que a paciente tenha um embrião para transferir. Individualizar a decisão continua sendo um dos pilares da boa prática em reprodução assistida.


Fonte: Fitzgerald O, Li W, Vallence C, Chambers GM, Rombauts L. Cleavage stage versus blastocyst stage transfers in patients with a single zygote: an emulated target trial. Human Reproduction, 2026;41(7):1106–1114. doi: 10.1093/humrep/deag075

Conteúdo de caráter científico e informativo, não substitui consulta médica individualizada. Resultados de estudos observacionais e de emulação de ensaios clínicos devem ser interpretados dentro de suas limitações metodológicas.

Dra. Aline Leite · CRM-SP 102616 | RQE 331101 · Ginecologia e Medicina Reprodutiva